Última atualização em 16/01/2026 por Alan Zampieri
Quando o Dado Revela Mais do Que Aparenta
A informação do IBGE sobre os 87% que gastam até uma hora no trajeto casa-trabalho deve ser interpretada com cuidado. Esse recorte temporal inclui desde quem leva cinco minutos até quem enfrenta uma hora completa dentro do ônibus. A diferença é brutal. Para moradores das regiões centrais, o deslocamento pode ser rápido e eficiente. Já para quem vive nos Jardins Diamante, Paris ou Herman Moraes de Barros, na Zona Norte, a realidade é bem diferente.
A comparação nacional reforça o dilema. Segundo o Censo 2022, 67% dos trabalhadores brasileiros levam até meia hora para chegar ao emprego. Maringá, portanto, está na média nacional quando consideramos a faixa de até uma hora. Porém, o problema não está só no tempo gasto, mas na qualidade e na previsibilidade desse deslocamento. Um sistema eficiente não é aquele em que as pessoas simplesmente chegam ao destino, mas sim onde chegam com dignidade, conforto e pontualidade.
A Outra Face da Moeda: Quem Não Usa Ônibus?

Aqui mora um dos pontos mais preocupantes da nossa mobilidade urbana. Maringá registra um dos menores índices de uso de transporte coletivo entre as grandes cidades paranaenses: apenas 13% dos trabalhadores vão de ônibus ao emprego, contra 17% da média estadual. O dado é alarmante porque revela uma migração silenciosa — e perigosa — para o transporte individual motorizado.
Em Maringá, essa proporção pode ser ainda maior, considerando a baixa adesão ao transporte coletivo. Pesquisas do Plano de Mobilidade Urbana (PlanMob) revelam que 47% dos deslocamentos na cidade já são feitos por automóveis, enquanto o transporte coletivo responde por apenas 19%.
Esse movimento tem consequências severas. Mais carros nas ruas significam mais congestionamentos, mais poluição, mais acidentes e, paradoxalmente, mais tempo perdido no trânsito. A frota de veículos em Maringá cresceu de forma desproporcional à população: hoje há praticamente 1,39 habitante por veículo, número que se aproxima perigosamente da relação de um para um. É como se cada maringaense estivesse prestes a ter seu próprio carro — cenário insustentável para qualquer cidade que deseje ser moderna, eficiente e sustentável.
Os Gargalos Que Impedem Um Sistema de Excelência
Primeiro, o município não realiza estudos periódicos sobre oferta e demanda de cada linha, impedindo ajustes precisos no quantitativo de veículos. É como dirigir no escuro, sem faróis: não dá para saber se há ônibus em excesso em algumas rotas e falta em outras. Essa falta de dados confiáveis compromete a eficiência do sistema e gera desperdício de recursos públicos.
Terceiro, o município não acompanha periodicamente os parâmetros financeiros do contrato, incluindo custos e ganhos de eficiência. Isso significa que pagamos a conta sem saber exatamente por quê ou se há margem para negociação e melhoria. Transparência e controle são princípios básicos da boa gestão pública — e precisam ser aplicados integralmente ao transporte coletivo.
Por fim, a infraestrutura dos pontos de ônibus é inadequada. Muitos não têm cobertura, iluminação ou sinalização adequadas. Alguns estão deteriorados, sem acessibilidade para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. É constrangedor ver o estado de abandono de tantos pontos espalhados pela cidade, especialmente nos bairros periféricos, onde o transporte coletivo é mais essencial
Otimização Inteligente da Frota: A Solução Esquecida
Aqui está o cerne da questão que precisamos enfrentar com urgência: otimizar a frota para que as pessoas não fiquem esperando muito tempo o ônibus chegar, sobretudo em bairros afastados. Essa deve ser a prioridade número um da gestão da mobilidade urbana em Maringá. Não adianta termos 250 ônibus circulando se eles não estão onde e quando o povo precisa.
A tecnologia já oferece soluções comprovadas. Cidades como Porto Alegre, Manaus e Recife implementaram sistemas de inteligência artificial para otimização de rotas e horários, com resultados impressionantes. A plataforma Optibus, por exemplo, utiliza algoritmos de otimização que analisam grandes volumes de dados para alocar veículos de forma eficiente, reduzir custos e melhorar a qualidade do serviço aos passageiros.
Casos Práticos de Outras Cidades
Não precisamos reinventar a roda. Várias cidades brasileiras de porte semelhante ao de Maringá já implementaram políticas públicas inovadoras que melhoraram significativamente seus sistemas de transporte coletivo. Vamos aos exemplos práticos.
CURITIBA
JARAGUÁ DO SUL
PARANAGUÁ
No litoral do Paraná, com 145 mil habitantes, Paranaguá implantou tarifa zero integral. A cidade é uma das 20 paranaenses que adotaram total ou parcialmente a gratuidade no transporte coletivo, impactando mais de 4,6 milhões de pessoas no estado. A tarifa zero amplia o acesso a serviços públicos, emprego e educação, estimula a economia local e reduz o uso de carros, contribuindo para sustentabilidade e qualidade de vida.
Essas experiências demonstram que soluções existem e funcionam. O desafio é ter vontade política para implementá-las, recursos bem alocados e gestão competente para executar. Maringá tem potencial para se tornar referência regional, mas precisa agir com urgência, técnica e determinação.
Mobilizar, Propor e Transformar: O Papel de Cada Um
O transporte coletivo não é problema apenas do governo ou da concessionária. É desafio de toda a sociedade maringaense. Cada um de nós tem papel fundamental nessa transformação. Os empresários podem contribuir apoiando políticas de incentivo ao transporte coletivo, oferecendo vale-transporte ampliado ou flexibilizando horários de trabalho para reduzir a pressão nos horários de pico.
As lideranças comunitárias dos bairros devem cobrar melhorias específicas para suas regiões, participar das audiências públicas sobre mobilidade e pressionar para que o PlanMob seja efetivamente implementado. A sociedade civil organizada, como entidades de classe, ONGs e universidades precisam acompanhar de perto a gestão do transporte, fiscalizar o uso dos recursos públicos e propor soluções técnicas baseadas em estudos sérios.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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