Última atualização em 12/01/2026 por Alan Zampieri
Maringá e o Dilema dos Recursos Públicos
A aprovação pela Câmara Municipal de 25 novos cargos comissionados em julho de 2025, com impacto anual de quase R$ 3 milhões, representa um movimento na contramão do que vemos em outras cidades brasileiras. Enquanto gestores pelo país implementam políticas de contenção de gastos e otimização da máquina pública, Maringá opta por expandir sua estrutura administrativa.
O que mais me chama atenção, é a facilidade com que se aprovam gastos que poderiam ser questionados. A viagem da comitiva maringaense para Portugal, custando R$ 60 mil aos cofres públicos para “estudar” um festival medieval, exemplifica bem essa questão. Vivemos na era da informação digital – por que não realizar esse benchmarking de forma virtual?
O Peso dos Gastos com Pessoal na Administração Pública
A matemática é simples e preocupante. Segundo dados obtidos através do Portal da Transparência, a prefeitura de Maringá gastou R$ 629.865,43 com diárias apenas nos primeiros cinco meses de 2025. Paralelamente, a Câmara Municipal criou 25 novos cargos comissionados, estabelecendo uma proporção de 137 comissionados para apenas 76 servidores efetivos.
Essa desproporção entre servidores efetivos e comissionados contraria princípios básicos da administração pública eficiente. Como consultor empresarial, posso afirmar que nenhuma empresa privada sobreviveria com tal estrutura de custos. A experiência do Tribunal de Contas de Santa Catarina, que determinou a revisão e redução de cargos comissionados em diversos municípios, demonstra que essa prática já é vista com ressalvas pelos órgãos de controle.
Os dados revelam ainda que a Câmara Municipal reservou R$ 200 mil para diárias em 2025, mas utilizou apenas R$ 7,9 mil nos primeiros três meses do ano. Isso sugere uma falta de planejamento ou uma superestimação desnecessária dos gastos com deslocamentos.
Benchmarking: Quando o Virtual Supera o Presencial
Como consultor empresarial, defendo veementemente a prática do benchmarking como ferramenta de gestão. No entanto, é fundamental que essa análise seja feita de forma eficiente e econômica, especialmente quando se trata de recursos públicos.
O custo de R$ 60 mil poderia ter sido reduzido a menos de R$ 10 mil, contratando um consultor especializado em eventos culturais para produzir um relatório técnico completo. Isso não apenas economizaria recursos, mas também geraria um documento mais detalhado e objetivo.
Em Curitiba, a Câmara Municipal adotou uma postura exemplar ao limitar seus gastos a 2,86% das receitas municipais, em vez dos 4,5% permitidos por lei, estabelecendo um teto de R$ 195 milhões para 2024. Essa autodisciplina fiscal resultou em economia significativa para o município.
Florianópolis, mesmo enfrentando dificuldades financeiras, demonstrou responsabilidade ao bloquear R$ 403 milhões do orçamento para manter o equilíbrio fiscal, priorizando serviços essenciais.
Transparência: O Antídoto Contra o Desperdício
A transparência não é apenas uma obrigação legal – é uma ferramenta de gestão. Como alguém que acredita na prestação de contas, considero fundamental que Maringá aprimore seus mecanismos de controle social.
O Portal da Transparência municipal precisa ser mais intuitivo e detalhado. Onde estão os relatórios de prestação de contas das viagens internacionais? Como a população pode acompanhar o retorno efetivo desses investimentos?
Outras cidades têm demonstrado que a transparência pode ser um diferencial competitivo. O Paraná, por exemplo, foi destacado pela FGV como exemplo de boas práticas em transparência pública, divulgando inclusive o gênero dos servidores e detalhes das atribuições de lideranças.
A Conta que Não Fecha: Analisando o Orçamento Municipal
Vamos aos números, que não mentem. O orçamento de Maringá para 2025 totaliza R$ 3,2 bilhões, mas a distribuição dos recursos levanta questões importantes sobre prioridades municipais.
Enquanto R$ 290 milhões são destinados para obras – o que representa 9,06% do orçamento total –, vemos gastos questionáveis como os R$ 2,9 milhões anuais para os novos cargos comissionados criados pela Câmara Municipal. Isso sem contar os R$ 1,5 milhões estimados para diárias da prefeitura e R$ 200 mil para diárias da câmara.
A pergunta que não quer calar é: haverá orçamento suficiente para garantir os demais eventos culturais em Maringá? Quando uma única viagem para Portugal consome R$ 60 mil, precisamos questionar se estamos priorizando corretamente os recursos públicos.
Maringá tem potencial para ser referência em gestão pública eficiente. Nossa cidade conta com recursos, uma população educada e tradição de boa gestão. No entanto, é fundamental que adotemos práticas modernas de administração pública. Os R$ 3,2 bilhões do orçamento municipal podem gerar muito mais impacto social se aplicados com inteligência e transparência.
Como maringaense, acredito que nossa cidade merece uma gestão à altura de seu potencial. Isso significa dizer não a gastos desnecessários, sim à inovação e sempre à prestação de contas.
Participe da Mudança
A transformação da gestão pública não acontece apenas nos gabinetes – ela precisa da participação ativa da sociedade civil. Como cidadãos conscientes, precisamos:
- Acompanhar regularmente o Portal da Transparência
- Participar das audiências públicas sobre orçamento
- Questionar gastos que não fazem sentido
- Propor soluções baseadas em evidências
Maringá pode ser exemplo para o Brasil. Temos as condições necessárias: recursos financeiros, capital humano e uma sociedade civil engajada. Falta apenas a vontade política de implementar uma gestão verdadeiramente eficiente e transparente.
O dinheiro público é nosso. O futuro de Maringá também.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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