Última atualização em 17/01/2026 por Alan Zampieri
A aprovação da vacina Butantan-DV contra a dengue pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, em novembro de 2025, não é apenas mais um capítulo na história da saúde pública brasileira. É a confirmação de que somos capazes de liderar a ciência mundial quando investimos, com seriedade e continuidade, em pesquisa e desenvolvimento. Como professor universitário que vive a realidade das instituições de ensino e pesquisa, sinto o peso dessa conquista: ela representa a materialização do potencial brasileiro de transformar conhecimento em solução concreta para milhões de pessoas.
Quando a Ciência Nacional Vence uma Batalha de Décadas
A Butantan-DV surge como resposta científica a esse desafio histórico. Desenvolvida após 15 anos de estudos, com mais de 16 mil voluntários participando dos ensaios clínicos em 14 estados brasileiros, a vacina demonstrou eficácia robusta e perfil de segurança exemplar. Os números falam por si: eficácia geral de 74,7%, proteção de 91,6% contra dengue grave e 100% de eficácia contra hospitalizações na população de 12 a 59 anos. Trata-se de resultados publicados em revistas científicas de prestígio internacional, como a The New England Journal of Medicine, legitimando a qualidade da pesquisa brasileira.
O diferencial da dose única não é apenas uma conveniência logística — é uma revolução estratégica. Em contextos de epidemia, quando a velocidade de resposta é crítica, proteger a população com uma única aplicação muda completamente o cenário operacional da saúde pública. Facilita a logística de distribuição, reduz custos operacionais, aumenta a adesão da população e permite coberturas vacinais mais amplas em menos tempo. É ciência traduzida em eficiência para o Sistema Único de Saúde.
Brasil: Da Dependência à Exportação de Tecnologia em Saúde
Historicamente, o Brasil importa cerca de 90% da matéria-prima necessária para fabricação de vacinas e medicamentos, revelando uma dependência externa preocupante. Essa fragilidade ficou evidente durante a pandemia de Covid-19, quando o país enfrentou dificuldades para garantir insumos básicos. Mas a história da Butantan-DV inverte essa lógica: aqui, o Brasil desenvolveu a tecnologia, domina o processo produtivo e agora está apto a exportar essa solução para o mundo.
O Instituto Butantan, inclusive, já figura entre os 10 maiores produtores mundiais de vacinas por faturamento, segundo relatório da Organização Mundial da Saúde, e é o principal produtor da América Latina. A instituição exporta vacinas contra gripe para países como Uruguai, Equador e Nicarágua. Essa inserção internacional demonstra que o Brasil tem condições de ser não apenas consumidor, mas protagonista no mercado global de biotecnologia.
O potencial brasileiro em sustentabilidade reforça essa vocação. Somos referência mundial em energias renováveis, com aproximadamente 48% da matriz energética proveniente de fontes limpas — índice muito superior à média global. A bioenergia, produzida a partir da biomassa da cana-de-açúcar, resíduos agrícolas e florestais, coloca o país em posição privilegiada na transição energética mundial. Projeta-se que, até 2050, a bioenergia corresponderá a quase 30% de toda a energia usada no planeta, e o Brasil está na vanguarda desse movimento.
Recentemente, foi protocolado pelo deputado federal Ricardo Barros na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei que propõe o Programa Nacional dos Combustíveis Avançados Renováveis, estabelecendo cronograma de adição obrigatória de diesel verde e bioquerosene de aviação aos combustíveis fósseis, acelerando a transição energética do país. A iniciativa demonstra que o Brasil pode, sim, liderar globalmente na produção de tecnologias sustentáveis, gerando crescimento econômico com responsabilidade ambiental.
O Que Maringá Pode Aprender com Essa Vitória da Ciência
Aqui em Maringá, os números da dengue também assustaram. Entre julho de 2023 e julho de 2024, foram registrados 23.357 casos. No ano de 2024, só de janeiro a agosto, foram 22.694 casos confirmados. A 15ª Regional de Saúde, que abrange 30 municípios incluindo nossa cidade, registrou 11.161 casos e 32 mortes em 2025. São vidas perdidas, famílias enlutadas, sistema de saúde pressionado e economia local impactada.
Felizmente, em 2025 a cidade apresentou queda significativa, com redução de 81,7% nos casos — de janeiro a agosto foram 4.163 casos confirmados, contra os 22.694 do mesmo período em 2024. Essa redução é resultado de ações estratégicas municipais, incluindo o uso de novas tecnologias no combate ao Aedes aegypti, como as armadilhas ovitrampas e a introdução de mosquitos com a bactéria Wolbachia. São estratégias que funcionam, mas que precisam ser mantidas e ampliadas.
A chegada da Butantan-DV ao Programa Nacional de Imunizações representa uma nova arma para Maringá na luta contra a dengue. A vacinação em dose única facilitará a cobertura da população, especialmente em períodos de surto, quando a velocidade de proteção é fundamental. A expectativa é que o Ministério da Saúde inicie a incorporação da vacina já no calendário de 2026. Para Maringá, isso significa a possibilidade de proteger milhares de maringaenses de forma mais eficiente, reduzindo hospitalizações, evitando mortes e aliviando a pressão sobre o sistema municipal de saúde.
A Urgência de um Programa Nacional de Aceleração da Inovação
Mas a mensagem central que a vacina do Butantan nos traz é outra: o Brasil precisa, com urgência, de um grande programa nacional para aceleração econômica centrado em inovação, pesquisa e desenvolvimento. Não pode ser um programa partidário ou ideológico. Precisa ser um programa de Estado, com continuidade garantida, foco em resultados mensuráveis e participação ativa do setor privado, universidades e institutos de pesquisa.
A ciência é a base da inovação, e investimentos em pesquisa científica básica resultam em descobertas com aplicação prática na economia. Parcerias entre universidades e o setor privado são fundamentais para transformar conhecimento acadêmico em soluções reais, gerando empregos de alta qualidade, fortalecendo a indústria nacional e promovendo desenvolvimento sustentável.
Países desenvolvidos investem, em média, mais de 2% do PIB em pesquisa e desenvolvimento. O Brasil, por sua vez, oscila em torno de 1,2% — índice insuficiente para um país que almeja protagonismo tecnológico. Além disso, a instabilidade no financiamento de ciência, tecnologia e inovação tem sido uma das maiores barreiras ao avanço brasileiro nessa área. Desde 2013, o dispêndio nacional em pesquisa e desenvolvimento vem diminuindo em valores absolutos, prejudicando projetos de longo prazo e desestimulando pesquisadores.
Transparência, Eficiência e Foco em Resultados: Os Pilares da Transformação
A vacina Butantan-DV nos ensina uma lição fundamental: políticas públicas eficazes precisam ter objetivos claros, métricas definidas e compromisso com resultados. O desenvolvimento da vacina levou 15 anos de pesquisa contínua, com rigoroso acompanhamento de mais de 16 mil voluntários, publicação dos resultados em revistas científicas internacionais e avaliação criteriosa pela Anvisa. Cada etapa foi documentada, cada decisão foi baseada em evidências, cada investimento foi justificado por resultados concretos.
É assim que devemos conduzir todas as políticas públicas: com transparência, eficiência e foco em resultados mensuráveis. Não adianta anunciar programas que não saem do papel, criar estruturas burocráticas ineficientes ou fazer investimentos sem acompanhamento de indicadores. É preciso definir metas, estabelecer prazos, monitorar a execução, corrigir rotas quando necessário e prestar contas à população de forma clara e acessível.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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