Última atualização em 17/01/2026 por Alan Zampieri
Quando o Voto e a Prática Se Distanciam: O Caso Giselli Bianchini
Em julho de 2025, a Câmara Municipal de Maringá votou a criação de 25 novos cargos comissionados. A proposta, aprovada em regime de urgência, aumentaria de quatro para cinco o número de assessores por gabinete parlamentar, gerando um impacto orçamentário de aproximadamente R$ 2,9 milhões por ano. Sete vereadores votaram contra.
Na tribuna, Giselli foi enfática. “Precisamos votar conforme nossas convicções, e a minha não é essa”, afirmou publicamente. Sua posição era clara: o município não precisava de ampliação de cargos, e a medida representava gastos desnecessários com recursos públicos. Como vereadora, ela tinha cada um dos seus direitos na hora de discursar — e assim fez, coerentemente com o que pregava.
A Justificativa Que Não Convence
Procurada pela imprensa, Giselli respondeu por nota através de sua assessoria. Segundo o comunicado, ela continua sendo “defensora de um poder público mais enxuto” e justificou o aumento argumentando que, “mesmo eu tendo votado contra o aumento de cargos, a lei foi aprovada pela maioria”. Sua lógica, então: “A partir do momento em que a lei já está em vigor, minha responsabilidade passa a ser usar os instrumentos disponíveis para trabalhar mais e melhor pelo povo”.
A argumentação levanta questões incômodas. Se a lei estava em vigor, por que os outros seis vereadores que votaram contra mantiveram suas posições de princípio? Por que não nomearam o quinto assessor também? A diferença entre Giselli e seus colegas é justamente isto: eles votaram contra porque acreditavam que era desnecessário, e mantiveram essa convicção na prática. Não aproveitaram o “vácuo” deixado pela aprovação da lei para fazer o contrário do que votaram.
A questão não é técnica — é moral. Não é sobre legalidade, mas sobre integridade. A lei criou a possibilidade, mas ninguém obrigou Giselli a utilizá-la. Ela tinha a mesma liberdade que os demais: dizer não. E não disse.
O Contexto de Pressão Social e Falta de Transparência
O contexto importa. Em julho de 2025, quando a votação aconteceu, a população de Maringá não havia sido consultada. O projeto tramitou em regime de urgência, sendo votado em primeira e segunda discussão no mesmo dia, sem tempo para debate público. Isso gerou reações nas redes sociais, críticas do Observatório Social de Maringá e questionamentos sobre a falta de transparência no processo.
Sete vereadores enfrentaram essa pressão popular e mantiveram suas posições contra. Não é fácil votar contra quando a maioria aprova e há outros cargos disponíveis para serem ocupados. Há sempre a tentação: “Se todo mundo está fazendo, por que eu não posso?”. Mas esse raciocínio é exatamente o que enfraquece as instituições públicas.
Não é Perseguição: É Coerência em Pauta
É importante deixar claro: não se trata de perseguição política contra Giselli Bianchini. Ela é vereadora eleita, tem o direito de nomear assessores e, tecnicamente, agiu dentro da lei. Tampouco se trata de questionar sua competência ou dedicação ao trabalho.
Trata-se, simplesmente, de cobrar coerência. Um dos maiores déficits de confiança na política municipal — e nacional — é exatamente este: a distância entre o discurso eleitoral e a prática de governo. Candidatos prometem enxugar a máquina pública, depois ampliam. Prometem transparência, depois agem nas sombras. Prometem ouvir a população, depois ignoram o clamor.
A Questão Maior: Vereadores Que Façam o Certo
Maringá precisa de vereadores que façam o certo. Não é um ideal utópico — é uma exigência básica de quem ocupa um cargo público. O município tem 430 mil habitantes, mais de 430 mil… e 23 vereadores. A população espera que esses 23 representantes sejam escolhidos a dedo, de forma responsável, priorizando competência, transparência e coerência.
Quando um vereador vota contra algo e depois faz exatamente aquilo que criticou, três coisas acontecem: (1) a confiança nas instituições diminui; (2) a população se desanima com a política; (3) repetem-se ciclos de promessas vazias e decepções.
O Observatório Social de Maringá, instituição importante de controle social, registrou a aprovação do aumento de cargos com preocupação sobre o impacto nos cofres públicos. A sociedade civil acompanha. Os cidadãos acompanham. As redes sociais comentam. Quando vereadores mudam de posição para aproveitar a brecha deixada pela lei, eles sabem que estão sendo observados — e que sua credibilidade está em jogo.
O Foco Deve Permanecer: Gestão Eficiente e Transparência
Maringá precisa de vereadores que entendam que o dinheiro público é dinheiro de todas as pessoas. Quando um vereador vota contra um gasto e depois o realiza, ele está desrespeitando não apenas sua palavra, mas também os que confiaram naquele voto. E, principalmente, está cuspindo na cara da população que paga impostos acreditando que estão sendo bem aplicados.
O caso de Giselli Bianchini é um exemplo — não necessariamente o único, mas o mais explícito — de como a incoerência corrói as instituições. Não se trata de ninguém ser perfeito. Trata-se de alguém ter tido a oportunidade de ser exemplo e ter escolhido outra via.
Maringá merece melhor. Os maringaenses merecem vereadores que votem o que pensam e façam o que votam. Merece gestores — públicos — que entendam que a responsabilidade não termina quando o voto é contado. Pelo contrário: é quando começa.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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