Última atualização em 10/11/2025 por Alan Zampieri
O Anúncio que Dividiu a Cidade Canção
No dia 2 de julho, a Secretaria Municipal de Cultura (SEMUC) anunciou oficialmente que a Virada Cultural 2025 acontecerá no Pavilhão Azul do Parque de Exposições. A decisão, que poderia ser vista como meramente técnica, desencadeou uma onda de críticas nas redes sociais e entre produtores culturais da nossa região.

Vista aérea do Parque de Exposições de Maringá, com o Pavilhão Azul
Como defensor da transparência, não posso ignorar que essa polêmica revela questões profundas sobre como pensamos nossa política cultural. A controvérsia não é apenas sobre um local – é sobre o conceito de democracia cultural que queremos para Maringá.
Quando o Modelo Nacional Encontra a Realidade Local
Para entender melhor nossa situação, precisamos olhar para o panorama nacional. A Virada Cultural nasceu em São Paulo em 2005, inspirada na Nuit Blanche de Paris, e se espalhou pelo Brasil como um modelo de democratização do acesso à cultura.
Os números são eloquentes: enquanto São Paulo investiu R$ 59,8 milhões para atingir 4,7 milhões de pessoas, nossa Maringá destinará R$ 2,5 milhões para cerca de 150 mil participantes. O custo por pessoa? Em São Paulo, R$ 12,72; em nossa cidade, R$ 16,67. Isso nos leva a questionar: estamos sendo eficientes no uso dos recursos públicos?
Público Versus Privado
A escolha do Pavilhão Azul traz à tona uma questão fundamental das políticas públicas culturais: qual espaço melhor serve ao interesse público?

A SEMUC justifica sua decisão baseada em critérios técnicos sólidos: infraestrutura adequada, proteção contra intempéries, acessibilidade para pessoas com deficiência e dados de uma pesquisa realizada pela UEM que indica o Parque de Exposições como o local mais frequentado pela população em eventos culturais.
Por outro lado, artistas e ex-gestores como Victor Simião argumentam que a essência da Virada Cultural está na ocupação dos espaços públicos abertos, na democratização real do acesso e na valorização do patrimônio urbano.
Lições de Outras Cidades
Belo Horizonte, que iniciou sua Virada Cultural em 2016, mantém o foco no hipercentro da cidade, transformando ruas e praças em palcos culturais. São Paulo continua apostando na descentralização, com 16 dos 21 palcos em bairros periféricos.
Curitiba, por sua vez, está debatendo na Câmara Municipal um projeto de lei para criar sua própria Virada Cultural, priorizando espaços públicos e acesso gratuito. Isso demonstra que o movimento nacional caminha na direção da ocupação urbana democrática.
A Sustentabilidade Financeira Como Princípio
Como consultor de negócios e alguém que acredita na gestão responsável dos recursos públicos, entendo a necessidade de otimizar custos. A parceria com a Sociedade Rural de Maringá, que disponibiliza o espaço gratuitamente, é um exemplo de como parcerias público-privadas podem viabilizar projetos culturais.
Contudo, sustentabilidade financeira não pode ser o único critério. Uma política cultural efetiva deve equilibrar eficiência econômica com impacto social, sempre mensurando resultados para a população.
Propostas para uma Virada Verdadeiramente Democrática
Como alguém que defende políticas públicas baseadas em evidências e resultados, proponho algumas reflexões para aprimorarmos nossa Virada Cultural:
Descentralização Gradual
Podemos manter o Pavilhão Azul como palco principal, mas criar pontos culturais simultâneos em praças e espaços públicos da cidade, aumentando o alcance geográfico e social do evento.
Transparência na Seleção Artística
O edital para contratação de artistas deve priorizar transparência, com critérios claros que valorizem a produção cultural local sem negligenciar atrações de impacto regional.
Indicadores de Resultado
Estabelecer métricas objetivas: número de pessoas alcançadas, impacto econômico no comércio local, participação de diferentes classes sociais e retorno em mídia espontânea para a cidade.
Governança Participativa
Criar um conselho gestor do evento com representantes da classe artística, poder público e sociedade civil, garantindo que futuras decisões sejam tomadas de forma colaborativa.
O Contexto Político Mais Amplo
Vivemos um momento peculiar da política brasileira, onde apenas 49% da população prefere a democracia a outros sistemas políticos. Eventos culturais como a Virada podem ser ferramentas poderosas de fortalecimento democrático, desde que sejam verdadeiramente inclusivos e participativos.

A gestão do ex-prefeito Ulisses Maia, sempre pautou-se pela busca de resultados concretos para a população. É nesse espírito que devemos analisar nossa política cultural: não pelo viés ideológico, mas pela efetividade prática.
Pragmatismo Com Alma
A análise das controvérsias revela que tanto a gestão municipal quanto os críticos têm pontos válidos. A prefeitura acerta ao buscar eficiência e acessibilidade, mas pode estar errando ao ignorar o conceito fundamental de ocupação urbana que caracteriza as Viradas Culturais.
A solução não está na polarização, mas na síntese inteligente: podemos ter um evento tecnicamente bem estruturado E democraticamente acessível. Podemos ter sustentabilidade financeira E impacto social significativo.
O Futuro Cultural que Maringá Merece
Nossa cidade tem potencial para ser referência em política cultural no interior do Paraná. Com 430 mil habitantes e uma economia dinâmica, Maringá pode desenvolver um modelo próprio de Virada Cultural que combine as melhores práticas nacionais com nossas especificidades locais.
Proponho que façamos desta edição de 2025 um laboratório de aprendizado. Vamos avaliar criteriosamente os resultados, ouvir a população, medir o impacto econômico e social, e usar essas informações para aprimorar o evento nos próximos anos.
A Virada Cultural não deve ser apenas um evento anual, mas parte de uma política cultural perene que valorize nossos artistas, fortaleça nossa identidade e promova a inclusão social através da arte e da cultura.
Maringá Pode Ser Protagonista
Enquanto maringaense apaixonado por esta terra e comprometido com resultados práticos, acredito que podemos transformar essa polêmica em oportunidade. Que possamos construir juntos uma Virada Cultural que seja, ao mesmo tempo, tecnicamente excelente, financeiramente sustentável e socialmente transformadora.
A cultura é direito constitucional e ferramenta de desenvolvimento social. Nossa responsabilidade como gestores públicos, artistas e cidadãos é garantir que esse direito seja exercido de forma plena, democrática e efetiva.
Que venha agosto, que venha nossa Virada Cultural, e que ela seja o primeiro passo de uma política cultural à altura do que Maringá merece: uma política com transparência, participação social e, acima de tudo, resultados concretos para nossa gente.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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