Última atualização em 03/02/2026 por Alan Zampieri
Quando o trilho se encontra com a cidade: a conversa que Maringá e Sarandi precisavam ter
Que tal pensar em uma cidade dividida pela metade? Pois é assim que muitos sarandienses acordam diariamente. Cerca de trinta mil pessoas cruzam a linha férrea todos os dias entre Sarandi e Maringá — um fluxo que demonstra a força econômica dessa conurbação, mas também expõe um gargalo estrutural que não dá mais para ignorar. A ferrovia passa por Sarandi como um muro invisível, partindo bairros inteiros e criando congestionamentos que consomem tempo, combustível e, acima de tudo, vidas.
Mas aqui vem a boa notícia: há movimento no tabuleiro. Em fevereiro de 2026, representantes das duas prefeituras, munidos de dados técnicos e vontade política, sentaram-se para traçar um mapa do futuro. O assunto? O rebaixamento da linha férrea — uma obra que pode transformar completamente o cenário de mobilidade na região.
Essa conversa não é nova. Mas o contexto é completamente diferente agora.
Por que agora é diferente: dados que falam mais alto que promessas
O governo federal confirmou recursos no Orçamento da União para 2026, direcionando aproximadamente R$ 700 milhões para essa obra no trecho de Sarandi. Não é pouco. Mas mais importante que o dinheiro é entender por que esse investimento faz sentido econômico agora.
Sarandi é o município paranaense com a maior projeção de crescimento populacional até 2050: 61%. Atualmente, cerca de 118 mil habitantes. Em 2050, ultrapassará 190 mil pessoas. Londrina terá 576 mil. Maringá, 474 mil. Esses números não são simples previsões estatísticas — eles revelam um fenômeno real de migração de pessoas dos grandes centros para cidades médias com custo de vida mais acessível.
Mas infraestrutura não cresce sozinha com a população. Cresce antes dela, ou fica-se para trás.
O desafio real: segurança sem negociação
Enquanto os gestores debatem planejamento urbano, as estatísticas de acidentes falam uma linguagem que não deixa margem para interpretação. No Brasil, 75% dos acidentes ferroviários ocorrem em passagens em nível — aqueles cruzamentos ferro-rodoviários tão comuns em cidades que cresceram ao redor das ferrovias.
Em Minas Gerais, apenas entre 2020 e 2025, foram registrados 632 acidentes em passagens de nível, resultando em 126 mortes. São Paulo teve 624 acidentes, 123 óbitos e 250 feridos. O Brasil, como um todo, contabilizou 3.133 acidentes nesse período, com 476 mortes.
Em Sarandi, especificamente, entre 2019 e 2022, foram registrados 9 acidentes em cruzamentos críticos. A resposta da administração municipal foi tecnológica: instalou semáforos sensoreados nos cruzamentos da Rua América e Atílio Salvalagio. Mas tecnologia paliativamente não resolve o problema estrutural.
O rebaixamento elimina o problema na raiz. Sem passagens de nível, não há colisão entre trens e veículos. Trata-se de segurança pública, não de luxo urbano.
O que significa a cooperação técnica entre as cidades
Na reunião de fevereiro de 2026, as prefeituras de Maringá e Sarandi, com suporte técnico do Ipplam e da Associação Comercial e Empresarial de Maringá (Acim), formalizaram um comitê intermunicipal para coordenar o projeto.
Esse comitê não é apenas administrativo. É o espaço onde decisões técnicas começam a ganhar forma de execução. O trabalho previsto inclui:
Definição de demandas infraestruturais — quais desapropriações são necessárias, quais vias precisam ser readequadas, como manter a operação ferroviária durante as obras.
Alinhamento com o DNIT — o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes é o órgão que vai analisar tecnicamente o projeto e liberar sua execução.
Protocolo junto ao PAC ou emendas parlamentares — o caminho para que o dinheiro federal chegue efetivamente à obra.
Esse tipo de articulação interinstitucional é o que frequentemente falta em grandes projetos brasileiros. Tem gente culpabilizando falta de dinheiro quando, na verdade, o problema é falta de coordenação. Aqui estamos vendo o oposto: dinheiro existe, mas coordenação política também.
A lição que Maringá já aprendeu
Não foi fácil. Envolveu desapropriações, complexidade estrutural, gestão de impactos durante a construção. Mas o resultado foi concreto: integração urbana, redução de congestionamentos, segurança aumentada.
Sarandi agora tem a vantagem de aprender com essa experiência. O comitê pode consultar técnicos que estiveram envolvidos naquela obra, otimizar prazos e custos.
Mobilidade metropolitana: o contexto maior
Alguns podem perguntar: por que gastar R$ 700 milhões em rebaixar ferrovia? Existe alternativa mais barata?
Tecnicamente, sim. Viadutos e passarelas custam menos que rebaixamento. Mas rebaixamento é mais eficiente do ponto de vista urbanístico. Cria condições para desenvolvimento urbano integrado, favorece circulação de pedestres, permite uso do espaço onde antes havia barreira física.
Além disso, há um projeto maior no horizonte: o Trem Pé Vermelho. Esse projeto de transporte ferroviário de passageiros (VLT) conectaria 13 municípios do Norte do Paraná — de Paiçandu a Ibiporã, passando por Maringá, Sarandi e Londrina. O estudo da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), divulgado em janeiro de 2025, estimou que esse trem poderia transportar 36 mil passageiros por dia.
A obra de rebaixamento em Sarandi não é pré-requisito para o Trem Pé Vermelho, mas facilita imensamente sua viabilidade operacional. Ferrovias urbanas em cidades onde já existe divisão territorial por trilhos funcionam menos bem que em cidades onde existe integração.
O que a região espera: uma conversa com lideranças locais
Nas conversas informais que circulam por redes sociais e grupos de WhatsApp de lideranças comunitárias de Maringá e Sarandi, o sentimento é misto: esperança, mas também ceticismo histórico.
“Esse projeto era prioridade 70 no ranking federal há alguns anos. Agora temos dinheiro confirmado. Por que agora?” — essa é a pergunta que várias pessoas estão fazendo.
Pontos de melhoria: o que não podemos esquecer
Nem tudo é simples. Há desafios reais:
Desapropriações — nem sempre consensuais, requerem processos jurídicos claros e justos.
Impactos durante obra — uma trincheira aberta em meio a cidade urbana gera congestionamentos temporários. Precisa ser bem comunicado e mitigado.
Coordenação entre atores — Rumo (concessionária operadora da ferrovia), Município, Estado, União, Ipplam, empresários. Todos têm interesses, nem sempre alinhados. Comitês intermunicipal precisam ser de facto operativos, não apenas formais.
Sustentabilidade ambiental — a obra deve cumprir protocolos ambientais. Há áreas verdes que precisam ser preservadas ou compensadas.
Esses pontos não invalidam o projeto. Apenas indicam que gestão competente é necessária.
Por que isso importa para você que vive em Maringá
Você que trabalha em Maringá mas mora em Sarandi (ou vice-versa). Você que precisa deslocar-se entre cidades para acessar serviços, compras, educação. Você que se importa com segurança viária.
Esse projeto é sobre qualidade de vida prática. Significa menos tempo no trânsito, menos risco de acidentes no cruzamento com ferrovia, cidades mais conectadas.
É também sobre proatividade governamental. Significa que gestores estão olhando para daqui 25 anos, quando Sarandi terá 190 mil habitantes, e perguntando-se: qual infraestrutura precisamos ter pronta hoje para que essas pessoas vivam bem?
Gestão competente como opção política
Essa história não é apenas sobre rebaixar uma ferrovia. É sobre escolher gestão competente como opção política. Sobre sentar-se à mesa, colocar dados técnicos na frente, coordenar atores diversos, e sair com um plano que faz sentido.
Maringá e Sarandi têm uma oportunidade: mostrar que cidades médias paranaenses conseguem executar projetos de grande envergadura quando há coordenação clara, recursos disponíveis e compromisso com resultados mensuráveis.
Isso inspira. E em tempos de desconfiança na política, inspiração importa.
Acompanhe esse projeto. Participe quando puder. Cobre transparência quando necessário. Porque mobilidade urbana de qualidade não é luxo — é direito. E direitos se conquistam participando.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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