Última atualização em 29/09/2026 por Alan Zampieri
Três endereços, um mesmo asfalto
Pegue a Avenida São Paulo, dirija devagar e observe que no trecho da Vila Bosque, onde a pista faz aquele desvio esquisito que todo maringaense já estranhou pelo menos uma vez, havia um cedro. Esse desvio existia por causa dele.
Em 2004, a administração municipal decidiu mexer no traçado da antiga Gurucaia para não derrubar a árvore, uma escolha rara, que a cidade contou e recontou por duas décadas. Quatro anos depois, a Lei Municipal nº 8.112/2008 tornou o cedro imune de corte e obrigou o Município a recolher suas sementes todo ano e destiná-las ao viveiro municipal.

Siga um pouco mais e verá que na rotatória do Jardim Aclimação, está a Praça do Avião, com o Xavante AT-26 que a Força Aérea doou à cidade em setembro de 2015.
Rapidez e escuta não são adversárias. A mesma administração que devolveu um avião ao pedestal em 30 horas pode publicar um laudo antes de encostar a motosserra.
O avião caiu e voltou em 30 horas, e isso merece ser dito, então começo pelo que deu certo, porque criticar o que funciona é preguiça intelectual. Entenda a história:
Em 1º de agosto, por volta das 11h, o avião balançou e caiu. O Simepar registrou rajadas de 46,1 km/h naquele horário, e a Defesa Civil municipal apontou corrosão avançada no suporte metálico. A aeronave pesa mais de duas toneladas e estava sobre um pedestal de cerca de quatro metros. A área foi isolada no mesmo dia.
Dois dias depois, o monumento apareceu pichado. Ainda assim, em 4 de agosto o Município já anunciava o nome do restaurador e a intenção de transformar o espaço em atração turística. Em 21 de agosto começou o trabalho técnico, sob responsabilidade do ex-piloto e colecionador Luciano André Schneider, em parceria entre Município, iniciativa privada e a FAB. O investimento veio de um empresário local. As equipes municipais entraram com guindaste, maquinário e logística.
No dia 22 o Xavante já estava de volta ao suporte. No dia 23, a revitalização estava concluída em menos de 30 horas, contra a semana prevista. E já se fala em réplicas de metralhadora nas asas e em reforma da praça.
Isso é articulação público-privada bem-feita, com custo zero, ou mínimo, para o contribuinte. Registre-se e aplauda-se.
Só que aplauso bom é aquele que vira régua. Se a cidade consegue isso com um avião, por que não consegue com o resto?
O cedro está no Ingá, esperando um endereço
Em janeiro de 2026, o Conselho Municipal do Meio Ambiente concordou com a remoção do cedro, ou seja, ele não caiu de surpresa. A Comissão Especial de Preservação do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Maringá também deu o aval. A imprensa local anunciou em março que a árvore vivia seus últimos dias, tomada por fungos.
Sendo assim, o diagnóstico foi feito, os colegiados foram ouvidos, o risco de queda era real e a decisão técnica era defensável. Em 23 de maio a árvore foi cortada. O tronco seguiu para o Parque do Ingá.
A Prefeitura informou que avaliaria a melhor forma de manter viva a memória do exemplar e que uma nova muda da mesma espécie seria plantada no local. Entre as hipóteses em análise, estavam a conservação em estado natural e intervenções artísticas.
Passaram-se 115 dias. Até o fechamento deste artigo, não localizei divulgação oficial de destinação, projeto, prazo ou responsável. Se existe e me escapou, publico a correção com o mesmo destaque, e ficarei satisfeito de estar errado.
O grande incômodo está no fato de que a mesma cidade que mudou o traçado de uma avenida para salvar essa árvore e escreveu uma lei para protegê-la, não conseguiu, em quase quatro meses, escrever uma linha dizendo onde o tronco vai parar.
Dez tamareiras, e um bairro que pediu
No início de agosto, dez tamareiras de aproximadamente 50 anos saíram da Praça Vereador Oswaldo Vieira. Segundo o Município, o remanejamento faz parte de obra de revitalização e atende pedido de alguns moradores feito no ano anterior. As tamareiras foram replantadas em área municipal no Eurogarden, onde será implantado o Parque Português.
Veio a reação. Um requerimento protocolado em 11 de agosto cobrou critérios técnicos e plano de manejo, o prazo de resposta venceu em 12 de setembro. Depois veio uma Notícia de Fato ao Ministério Público.
E aí a história virou. Em 28 de agosto, o grupo “Amigos da Praça” formalizou um documento com assinaturas: a retirada partiu da própria vizinhança. A folhagem densa bloqueava a iluminação pública à noite e transformava a praça em “ponto de insegurança e tráfico”, além das “infestações de larvas que entravam nas casas”.
Leia de novo: os moradores tinham razão. E a bióloga Caroline Costa, ouvida pela imprensa, também tinha razão ao lembrar que aquelas árvores já eram infraestrutura verde do bairro, com sombreamento e conforto térmico, e ao questionar o impacto social de transferir esse patrimônio para outra região da cidade.
Falta um número nessa conta, e ele não foi respondido: a reportagem perguntou à Prefeitura quanto custou o transporte das árvores e não obteve retorno até o fechamento da edição. No mercado de paisagismo, uma tamareira adulta é item valorizado, há exemplares anunciados por cerca de R$ 9 mil, sem contar logística e transplante. Dez delas não são detalhe de planilha.
Os dois lados certos, e mesmo assim a cidade brigou. Porque ninguém publicou nada antes. A carta dos moradores só apareceu 18 dias depois da primeira reportagem.
Um aviso na praça, com o projeto e o laudo, teria custado uma placa. E teria evitado um possível processo no Ministério Público.
FATO E SOLUÇÃO DIVULGADA

“Mas são coisas diferentes”, você vai dizer
E você tem razão. Vou defender o argumento contrário ao meu antes que ele possa aparecer nos comentários.
Não é sobre árvore. É sobre o rito, é sobre tempo de resolução.
Restaurar uma aeronave é tarefa de escopo fechado: existe um objeto danificado, um especialista habilitado, um patrocinador disposto e um resultado visível. Definir o destino simbólico de um tronco é decisão discricionária, sem prazo legal, sem risco a terceiros e sem pressa material. Uma praça com avião caído é canteiro de obra no meio de uma rotatória movimentada; um tronco guardado no Ingá não machuca ninguém. Comparar as duas velocidades como se fossem a mesma coisa seria demagogia barata, e eu não vou fazer isso.
Por isso não peço pressa. Peço prazo publicado.
Discricionariedade administrativa é liberdade de escolher o mérito, qual destino dar ao tronco: memorial, escultura, peça de acervo, madeira reaproveitada em mobiliário de parque. Não é licença para prazo indeterminado. O gestor pode decidir o quê; não pode deixar de dizer quando, nem quem responde. Publicar “temos 90 dias para decidir e o responsável é a Secretaria X” custa um parágrafo no Diário Oficial e encerra a suspeita antes que ela nasça. Foi exatamente isso que o caso do avião fez bem, e quase por acidente: ao anunciar o restaurador em 4 de agosto, três dias depois da queda, o Município eliminou o vácuo onde a desconfiança cresce.
| FATOS | Cedro | Tamareiras | Avião |
|---|---|---|---|
| Data do fato | 23/05/2026 | Início de 08/2026 | 01/08/2026 |
| Motivo declarado | Fim do ciclo biológico e risco de colapso | Obra de revitalização da praça | Corrosão do suporte e vento de 46,1 km/h |
| Quem foi ouvido antes | Comdema e Comissão de Patrimônio | Grupo de moradores do entorno | Defesa Civil e FAB |
| Documento público prévio | Não divulgado na íntegra | Não divulgado | Avaliação técnica após a queda |
| Financiamento | Recursos municipais | Equipe própria da Prefeitura | Patrocínio privado + FAB |
| Situação hoje | Tronco no Ingá, sem destino definido | Notícia de Fato no MPPR | Restaurado; praça em estudo turístico |
Observe a linha “documento público prévio”. É ali que mora o problema.
Quando o laudo não é publicado antes, três coisas acontecem, sempre na mesma ordem. A vizinhança descobre. A boa decisão técnica vira suspeita. E o Município gasta semanas explicando o que poderia ter explicado em uma página.
A lei já manda publicar antes
Não é boa vontade que estou cobrando. É norma vigente.
A Constituição trata o meio ambiente equilibrado como bem de uso comum do povo e divide o dever de defendê-lo entre o poder público e a coletividade, não é o Executivo sozinho, conforme o art. 225. Além disso, o art. 37, coloca a publicidade entre os princípios da administração, não entre as cortesias.
O Estatuto da Cidade exige a participação da população na formulação, na execução e no acompanhamento de planos urbanos, tendo debates, audiências e consultas públicas como instrumentos, em seus arts. 2º e 43.
A Lei de Acesso à Informação manda divulgar informação de interesse público independentemente de solicitação, em seu art. 3º.
Independentemente de solicitação. Está escrito. Transparência ativa não é favor prestado ao vereador que protocola requerimento nem ao promotor que recebe notícia de fato: é dever de ofício que antecede os dois. Quando o laudo só aparece depois da cobrança, o Município cumpre a lei no varejo e descumpre o princípio no atacado.
Há um detalhe que agrava tudo isso: Maringá já licitou essa transparência. O Pregão 081/2026, da Secretaria Municipal de Limpeza Urbana, tem valor máximo de R$ 80.579.214,00 para serviços de manejo arbóreo urbano e inclui, expressamente, “solução tecnológica integrada e indissociável para controle e emissão de laudos eletrônicos”. O edital foi republicado em abril, com propostas previstas para 18 de maio, depois que a versão anterior, o Pregão 046/2026, de mesmo objeto e mesmo valor, acabou suspensa. O Observatório Social de Maringá impugnou as duas versões. Até o fechamento deste artigo não localizei registro público de homologação: por isso escrevo “licitou”, e não “contratou”.
E os laudos não são hipótese futura. Em agosto, a própria Secretaria Municipal de Limpeza Urbana informou que há mais de seis mil árvores em passeio público na cidade já com laudo, aguardando remoção. Seis mil documentos técnicos que existem, que o contribuinte custeou e que ninguém consulta sem protocolar pedido.
Os laudos, portanto, já existem hoje em papel e existirão amanhã em formato eletrônico. A pergunta é simples: por que não nascem públicos?
A cidade também tem os dados. Segundo o Instituto Ambiental de Maringá, a arborização urbana está inventariada por espécie: 33.665 sibipirunas, 21.850 oitis, 9.693 ipês-roxos, 5.221 aroeiras-salsa e 5.020 tipuanas, entre outras.
Temos inventário, temos conselhos, temos seis mil laudos prontos e uma licitação de R$ 80,5 milhões que promete digitalizá-los. O que falta é o hábito de publicar antes.
Quem já resolveu isso e não inventou a roda
Outras cidades brasileiras já fizeram, e há documentação pública de sobra.
| Cidade | Política pública | O que Maringá pode aproveitar |
|---|---|---|
| Belo Horizonte (MG) | Plano Municipal de Arborização Urbana, construído com sociedade civil e setor privado | Painel público que mostra cada ação prevista, o status de execução e o órgão responsável |
| Belo Horizonte (MG) | Adote um Bem Cultural, pioneiro em Minas Gerais | Adoção de bens protegidos por empresas, com placa interpretativa no local |
| São Paulo (SP) | Adote uma Obra Artística, regulamentado pelo Decreto 57.667/2017 | Termo de cooperação para restauro de monumentos com financiamento privado |
| Curitiba (PR) | Adoção de Logradouros Públicos, Lei Municipal 11.642/2005 | Fila pública de praças disponíveis, com adotantes identificados e resultados divulgados |
| Blumenau (SC) | Adote uma Praça, Lei 8.415/2017 | Desburocratização: mais da metade dos 80 espaços cadastrados já foi adotada |
| Paranaguá (PR) | PMAU aprovado pelo comitê estadual, com acompanhamento do MPPR | Plano validado por MPPR, IAT, CREA-PR, CRBio, Copel e universidades |
| Niterói (RJ) | Árvore condenada do Campo de São Bento transformada em escultura | Modelo direto para o tronco do cedro que está no Parque do Ingá |
Um denominador comum une os sete exemplos: nenhum deles dependeu de dinheiro novo.
Painel de acompanhamento, fila pública de adoção, termo de cooperação padronizado, plano validado por órgãos externos. O que essas cidades fizeram foi transformar decisão em procedimento, e procedimento em página pública. Belo Horizonte não gastou mais por ter um painel: gastou melhor por ter um. Curitiba e Blumenau não criaram secretaria nova, criaram uma porta de entrada e uma lista.
Cidade planejada também se planeja no detalhe
Maringá nasceu desenhada. A companhia colonizadora reservou bosques dentro do perímetro urbano quando quase ninguém no Brasil pensava nisso. Somos Cidade Canção e Cidade Verde não por acaso, e sim por projeto.
Herdeiro de cidade planejada não pode improvisar no rito, na falta de dados e de transparência. Um avião de volta ao pedestal em 30 horas prova que a máquina pública daqui funciona quando quer. Um tronco esquecido há 115 dias prova que ela só corre quando alguém aperta o play.
O que você pode fazer nesta semana
Cobre o laudo. Qualquer cidadão pode pedir, pela Lei de Acesso à Informação, o laudo técnico e o plano de manejo de uma intervenção no seu bairro. Na Prefeitura e na Câmara de Maringá, o prazo de resposta é de 15 dias, conforme a Lei Orgânica.
Leve a pauta à sua associação de moradores. Praça revitalizada com projeto conhecido pela vizinhança não vira polêmica, mas sim orgulho.
Acompanhe as fontes primárias de informações: Prefeitura de Maringá, Câmara Municipal de Maringá, Ministério Público do Paraná e Tribunal de Contas do Paraná.

🔗 Leitura Complementar
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