Última atualização em 29/09/2026 por Alan Zampieri
Quarta-feira, seis da tarde. Se você está parado no sinaleiro da Colombo ou pegando o Contorno Sul nesse horário, está no pior momento da semana. Segundo a Plataforma + Vida, da própria Prefeitura de Maringá, é entre 18h e 19h das quartas que a cidade mais registra acidentes.
Guarde essa cena. Ela volta no fim deste texto.
Até 13 de setembro de 2026, Maringá contabilizou 34 mortes no trânsito urbano, uma a mais que em todo o ano passado. No mesmo período, a Prefeitura arrecadou mais de R$ 41 milhões com infrações.
Quem acompanha as notícias de Maringá vê esses dois números quase toda semana, mas raramente na mesma frase. Resolvi juntá-los. Não para dizer que a multa mata, o que seria desonesto, e sim para fazer a pergunta que qualquer gestor faria diante de um caixa que cresce e de um resultado que piora: para onde vai esse dinheiro, e o que ele está comprando?
Sou advogado e professor, ou seja, passo boa parte do tempo lendo lei e explicando lei e farei as duas coisas aqui.
Uma multa por minuto, dia e noite
Para entender o tamanho da máquina de multas de trânsito em Maringá, faça a conta comigo. De 1º de janeiro a 31 de julho de 2026 se passaram 305.280 minutos. No mesmo intervalo, a cidade registrou 305.466 autuações. É mais de uma multa por minuto, 24 horas por dia, inclusive domingo.
Quase oito em cada dez vieram de radar de velocidade: 239.977. Os semáforos com fiscalização eletrônica somaram 34.260.
O caixa acompanha o ritmo: R$ 48,2 milhões em 2024 e R$ 58,1 milhões em 2025, acima da estimativa inicial do próprio Município, de R$ 54,4 milhões. Em 2023, a arrecadação do ano inteiro foi de pouco mais de R$ 41 milhões, valor que 2026 alcançou em pouco mais de oito meses. Naquele ano, a cidade aplicou mais de 338 mil multas de trânsito em 2023, recorde na história da cidade.
Maringá é a segunda cidade do Paraná que mais arrecada com multas, atrás só de Curitiba. Dividindo a previsão de 2026 pela população estimada pelo IBGE (Maringá e Curitiba), dá cerca de R$ 140 por maringaense, contra R$ 106 por curitibano. Londrina, maior que Maringá, prevê R$ 35 milhões. Maringá deve arrecadar R$ 60 milhões com multas em 2026.
Um detalhe diz muito. Em 2025, os 104 radares da cidade registraram 382.368 infrações. O campeão fica no número 5.420 da Avenida Sincler Sambatti, no Contorno Sul, com 29.601 autuações, e cinco dos dez que mais multam estão na mesma via. São 81 multas por dia, no mesmo ponto. Radar que flagra a mesma coisa todo dia, no mesmo lugar, está arrecadando. Se está educando, os números não mostram.
Enquanto a câmera se multiplicou, a presença humana encolheu: de 240 profissionais na fiscalização de trânsito em 2012 para 84 hoje, cerca de 20 deles em funções internas, para uma frota de 384 mil veículos. O próprio secretário de Mobilidade Urbana admite que tecnologia não substitui agente na rua.

Os números de mortes no trânsito aumentam na cidade de Maringá
De 2023 a 2025, a curva era boa: as mortes caíram de 47 para 33, e a gravidade dos acidentes recuou 36% no ano passado. Em 2026, o número mudou.
Até 13 de setembro, foram 34 mortes no perímetro urbano, contra 23 no mesmo período de 2025, alta de cerca de 48%. Os acidentes subiram 6%, para 5.380. Nas rodovias federais, sob responsabilidade da PRF, há mais oito mortes no ano.
O perfil das vítimas é o que mais me incomoda:
- Sete em cada dez estavam em motocicletas, segundo a Semob.
- Nenhuma das 33 vítimas contadas até 1º de setembro estava dentro de um carro: eram 23 condutores de moto, 2 garupas, 7 pedestres e 1 ciclista.
- A juventude paga a conta: a faixa de 20 a 29 anos é a mais atingida.
- A noite pesa: cerca de 70% das mortes de motociclistas acontecem à noite, e em 7 de 12 casos recentes analisados pela Semob havia álcool envolvido.
- Agosto foi o mês mais letal em 19 anos.
Há ainda um fator que interessa a quem vive da moto ou do carro de aplicativo. Segundo denúncia de trabalhadores à Semob, duas plataformas estariam testando em Maringá metas de corridas em janelas de 12 a 72 horas, o que o secretário de Mobilidade chamou de corrida contra o relógio. Quem trabalha sobre duas rodas não corre por esporte: corre porque a conta do mês precisa fechar. Isso não justifica a pressa, mas explica por que só multar não resolve.
Os endereços também têm nome. A Avenida Colombo lidera em acidentes, com 310 registros até 1º de setembro, seguida da PR-317 e do Contorno Sul. Em mortes, a Avenida Doutor Alexandre Rasgulaeff está à frente, com três; Contorno Sul, Brasil, Pedro Taques, Cerro Azul e Guedner somam duas cada.
Repare: o Contorno Sul aparece em todas as listas. A duplicação, de R$ 442,9 milhões, já foi licitada, como analisei em artigo anterior. Obra resolve parte do problema. A pergunta sobre o dinheiro das multas continua de pé.

Radar não é vilão, e eu explico por quê
Antes que alguém me coloque no coro da “indústria da multa”, expressão que volta sempre aos comentários e apareceu até na justificativa de um projeto aprovado na Câmara, começo defendendo o radar.
De 2023 a 2025, arrecadação em alta e mortes em queda andaram juntas. A Semob já flagrou carros a 130 e até 143 km/h dentro do perímetro urbano. Quem leva multa a 143 km/h na Sincler Sambatti não é vítima de indústria nenhuma. E há a contradição que a secretaria de mobilidade costuma lembrar: todo mundo reclama do radar longe de casa, mas pede um na frente da escola do filho, da igreja e do comércio.
Para onde vão as multas de trânsito em Maringá
A regra é federal e cabe numa frase. O art. 320 do Código de Trânsito manda aplicar a receita das multas exclusivamente em oito finalidades: sinalização, engenharia de tráfego, engenharia de campo, policiamento, fiscalização, renovação da frota, educação de trânsito e, desde 2025, habilitação de condutores de baixa renda.
Dois mitos caem aqui. Não é verdade que só 5% vão para o trânsito: os 5% seguem para um fundo nacional, e os outros 95% ficam com o órgão que multou, também presos ao trânsito. E pagar radar, notificação e JARI com multa é legal, porque a Resolução Contran 875/2021 trata essas despesas como fiscalização.
O problema está no § 2º do mesmo artigo: o órgão responsável deve publicar, todo ano, na internet, a receita das multas e sua destinação. A resolução do Contran repete a obrigação no art. 14.
Quando perguntada, a Prefeitura responde que o dinheiro vai para o Fundo Municipal de Trânsito e custeia ações educativas, sinalização, segurança das vias, contratos de radar e custos administrativos. A resposta está correta. E é genérica. Na reportagem que registrou a explicação, lê-se que “uma parcela” vai para o fundo. Qual parcela? Quanto pagou radar? Quanto virou faixa elevada, aula em escola ou curso para motociclista?
O motorista presta contas a cada radar. A Prefeitura precisa prestar contas de cada real.
Procurei o relatório do § 2º, com receita e destinação por finalidade, nos canais oficiais e na imprensa. Não encontrei. Se ele existe e eu não achei, corrijo aqui com o mesmo destaque. Mas, se existe, não está onde o cidadão procura. E há um complicador: o Fundo Municipal de Transportes e Segurança no Trânsito, criado pela Lei Complementar 560/2005, tem várias fontes de receita, de repasses a convênios e doações. Sem separar o que é multa, ninguém consegue verificar o cumprimento do art. 320.
Compare com Juiz de Fora (MG), cidade de porte parecido. No primeiro semestre de 2026, o município arrecadou R$ 14,7 milhões e aplicou R$ 17,1 milhões nas finalidades legais, e divulga esses números mês a mês no Portal da Transparência.

Pé-vermelho não gosta de caixa-preta
Maringaense é pé-vermelho: gosta de ver a terra, o trabalho e a conta. Então fiz o que faço com qualquer empresa que me contrata como consultor jurídico: um raio-X honesto da fiscalização e das multas de trânsito em Maringá.
| RAIO- X | O QUE OS DADOS MOSTRAM |
| Pontos fortes | Plataforma + Vida; limites menores e sem “pegadinhas”; faixas elevadas perto de hospitais e escolas; Moto + Vida; mortes em queda de 2023 a 2025 |
| Pontos de melhoria | Relatório anual do art. 320 não localizado; gasto por finalidade não divulgado; nenhuma meta pública ligada às multas; efetivo de 240 para 84 |
| Ameaças | Mortes 48% acima de 2025 no mesmo período; motos em sete de cada dez óbitos; noite e álcool; metas de aplicativos; descrédito da fiscalização |
| Oportunidades | Lei 15.153/2025 e CNH Social do Paraná; audiências da LRF que já existem; modelos de Juiz de Fora e Fortaleza |
A linha que decide o jogo é a segunda. A Câmara de Maringá já aprovou regras sobre onde o radar pode ficar, com estudo técnico e revisão (Lei 11.980/2025), e sobre como ele deve ser visto, com películas refletivas, lei mantida após a derrubada unânime de um veto em julho. Já discutimos onde o radar fica e se ele aparece. Falta decidir para onde vai o dinheiro que ele gera.
Nas notícias de política, o assunto quase não aparece, mas nas páginas policiais, aparece toda semana. Não é tema só técnico. É político, no melhor sentido, porque trata do que a cidade faz com o dinheiro de todos. E transparência, aqui, é sinônimo de eficiência: dinheiro que ninguém enxerga ninguém consegue corrigir.
Quem já fez a conta fechar
| Onde | O que fez | Resultado divulgado | O que Maringá pode aproveitar |
|---|---|---|---|
| Juiz de Fora (MG) | Publica todo mês arrecadação e aplicação das multas | 1º semestre de 2026: R$ 14,7 mi arrecadados, R$ 17,1 mi aplicados | Transparência mensal, sem custo relevante |
| Fortaleza (CE) | Plano Municipal de Segurança no Trânsito em lei, com meta de reduzir pela metade a taxa de mortes em dez anos | Mortes 58,4% menores entre 2014 e 2023; redução média de 68% nas vias que passaram a 50 km/h | Meta de vida escrita em lei |
| Fortaleza e São Paulo | Faixa Azul para motos, em teste autorizado pela Senatran | Fortaleza: nenhum acidente fatal ou grave nas faixas em 2025; em SP, a prefeitura vê queda de mortes e pesquisadores contestam | Testar só com medição pública |
O que une esses casos é que ninguém escondeu o placar. Fortaleza, aliás, também batizou sua ferramenta de Plataforma Vida. A diferença é que lá os dados viraram meta escrita em lei.
Da sua rua à Catedral: o que fazer nesta semana
- Consulte o seu trajeto na Plataforma + Vida.
- Peça o relatório pela Lei de Acesso à Informação, no Portal da Transparência. Sugestão de texto: “Com base no art. 320, § 2º, do CTB e no art. 14 da Resolução Contran 875/2021, solicito a receita arrecadada com multas de trânsito em 2025 e 2026 e sua destinação por finalidade, com a relação dos contratos pagos com essa fonte.”
- Leve o assunto à sua associação e ao seu vereador. Um requerimento de informação na Câmara pode custar uma folha de papel, e olhe lá.
- Se você se locomove de moto, procure o Moto + Vida na Semob e acompanhe os editais da CNH Social.
- No domingo (27), às 10h, o motoclube Católicos da Estrada celebra missa para motociclistas no Santuário de Santa Rita de Cássia, no Parque Itaipu, e segue em motociata até a Catedral. Aberto a toda a comunidade.
- Deixe sua opinião: qual cruzamento do seu bairro deveria estar no topo da lista?
Chegar em casa é a única meta que importa
Volte comigo àquela quarta-feira, seis da tarde. O motoboy que corta a Colombo não está pensando no art. 320, mas sim na próxima entrega. A mãe que atravessa a Avenida Brasil com o filho pela mão também não. mas também precisamos pensar em transparência, pois somos nós que pagamos a conta e temos o direito de ver o extrato.
Os Católicos da Estrada resumiram melhor do que eu: querem ajudar a construir um trânsito em que “chegar em casa seja sempre mais importante do que chegar rápido”. Acrescento um pedido: que as multas de trânsito em Maringá tenham endereço, meta e prestação de contas.
Fiscalizar exige coragem. Prestar contas, também. Maringá tem dados, lei e dinheiro. Falta decidir que a transparência chega antes da suspeita. É um debate público que precisa sair das páginas policiais e entrar de vez nas notícias da política maringaense.

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