Última atualização em 25/09/2026 por Alan Zampieri
Deixa eu começar com uma cena que todo maringaense conhece. Segunda-feira, dez da manhã, você precisa resolver algo no Centro. Dá a primeira volta no quarteirão. Dá a segunda. Na terceira, já está calculando se vale mais a pena pagar um estacionamento particular ou arriscar a multa.
Agora imagine que, a alguns quilômetros dali, surge um estacionamento vertical em Maringá com mais de mil vagas, bancado com dinheiro público, sendo 99 são para motos e 912 vagas para carros. A pergunta inevitável é: você vai poder usar?
Primeiro, os fatos: o que está sendo construído
O lado bom da história
Não sou contra a obra. Sou advogado e professor, e aprendi nas duas profissões que crítica sem reconhecer o mérito vira torcida.
Onde a conta não fecha
O problema não é o concreto. É o que vem depois dele.
Enquanto isso, no Centro da Cidade Canção
Aqui está o contraste que incomoda. Motoristas relatam dificuldade crescente para achar vaga no Centro, principalmente nos horários de pico; uma motorista contou ter ficado presa dentro do Estádio Willie Davids, de tão lotado que estava o espaço.
“Obra pública não se mede pelo tamanho da placa de inauguração, mas pelo número de pessoas que ela serve no dia seguinte.”
E a fiscalização? Dados da Secretaria de Mobilidade mostram cerca de 31 mil autuações do EstaR em 2024, aproximadamente 17 mil em 2025 e 4.913 até junho de 2026. A própria Semob atribui a queda à redução de agentes de trânsito, por aposentadorias e remanejamentos.

Fonte: Semob, via Maringá Mais. Valores de 2024 e 2025 aproximados.
Menos multa não significa trânsito melhor. Significa menos gente cuidando da rotatividade. E aqui entra um ponto de lei que pouca gente conhece: o Código de Trânsito determina que a receita das multas seja usada exclusivamente em sinalização, engenharia de tráfego, fiscalização, educação de trânsito e outras finalidades específicas, e obriga o órgão responsável a publicar todo ano, na internet, quanto arrecadou e onde aplicou (CTB, art. 320). Multa não é caixa livre. É dinheiro carimbado para o trânsito fluir.
O que outras cidades já aprenderam
Maringá não precisa reinventar a roda.
| Forças | Fraquezas |
|---|---|
| Recursos majoritariamente estaduais | Uso público fora dos eventos não definido |
| Economia de R$ 14 mi na licitação | Regras de cobrança e gestão não divulgadas |
| Vagas para motos, idosos e PCD | Nenhuma integração com o Centro ou com o EstaR |
| Oportunidades | Ameaças |
| Virar ponto de integração com o transporte coletivo | Estrutura ociosa na maior parte do ano |
| Apoio a motoristas e motociclistas de aplicativo | Benefício concentrado num único setor |
Transparência também se cobra
Debate público bom não se faz só no Instagram. Três atitudes práticas para quem quer participar:
- Pergunte formalmente. Pela Lei de Acesso à Informação, qualquer cidadão pode protocolar pedido à Prefeitura de Maringá perguntando se haverá cobrança, quem fará a gestão e qual o uso previsto fora dos eventos.
- Procure seu vereador. Peça uma audiência pública na Câmara Municipal sobre o uso da estrutura e o plano de vagas para o Centro.
- Compartilhe dados, não boatos. Este artigo traz as fontes linkadas. Leve a discussão para a associação do bairro, a paróquia, o grupo de WhatsApp do condomínio.
Obra boa é obra que a cidade usa
O estacionamento vertical em Maringá pode ser um avanço ou um monumento ao desperdício. A diferença não está no projeto de engenharia. Está nas regras de uso, na transparência dos dados e na coragem de ligar essa obra ao problema que o maringaense enfrenta todo santo dia: achar vaga, circular com fluidez e saber para onde vai o dinheiro das multas.

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