Última atualização em 16/01/2026 por Alan Zampieri
Como alguém que defende tanto a causa animal quanto políticas públicas eficientes, preciso ser franco: concordo plenamente com a urgência de fortalecermos o apoio aos animais abandonados, mas discordo da metodologia proposta.
Quando a Boa Intenção Pode Gerar Consequências Indesejadas

Evolução de Denúncias de Maus-tratos e Abandono em Maringá (2021-2023)
Não podemos ignorar a realidade brutal que enfrentamos: entre 2021 e 2023, a Secretaria de Proteção e Bem-Estar Animal (SEBEA) registrou impressionantes 6.496 denúncias relacionadas ao abandono e maus-tratos de animais em Maringá, sendo 4.123 casos de maus-tratos e 2.373 casos de abandono. Esses números saltaram de praticamente zero em 2021 para mais de 2.300 casos em 2023, revelando não apenas o crescimento das denúncias, mas também a criação de uma cultura de responsabilização que precisamos fortalecer.
Contudo, ao analisarmos a proposta com o rigor técnico que toda política pública merece, identificamos um risco real: a competição direta entre recursos destinados à causa animal e aqueles tradicionalmente direcionados às populações vulneráveis. Quando obrigamos eventos a exigir ração como “entrada”, estamos redirecionando doações que historicamente atendem famílias em insegurança alimentar – um problema que também assola nossa região.
O Dilema Ético da Competição Solidária
Vejam bem, não estou questionando a nobreza da causa animal. Como maringaense que acompanha de perto as dificuldades enfrentadas pelas ONGs locais – que lidam com mais de 2.800 animais na fila para castração – reconheço a urgência de ampliarmos o apoio. Mas também compreendo que políticas públicas eficazes devem expandir o universo de recursos disponíveis, não apenas redirecioná-los.
Maringá Já Pratica Solidariedade Voluntária Com Sucesso
Nossa cidade tem tradição consolidada em eventos solidários voluntários. A Expoingá, por exemplo, promove anualmente o “Dia de Portões Abertos” mediante doação de alimentos, e o Femucic mantém há anos seu ingresso solidário através de contribuições voluntárias. Esses exemplos demonstram que a generosidade do maringaense floresce naturalmente quando há transparência e organização adequada, sem necessidade de obrigatoriedade legal.
O Que Outras Cidades Estão Fazendo

Comparação de Estratégias de Bem-Estar Animal em Cidades Brasileiras
Curitiba implementou programa inovador que permite doações via PIX para compra de ração, alcançando 233 toneladas distribuídas e mais de 835 mil refeições garantidas. Porto Alegre desenvolveu projeto que permite trocar alimentos por ingressos em eventos, criando alternativa flexível que não obriga a doação específica de ração.
Por Que Sou Contra a Obrigatoriedade, Mas a Favor da Causa
Minha posição não é de oposição à causa animal – muito pelo contrário. É uma defesa da eficiência e da sustentabilidade das políticas públicas. Quando criamos obrigatoriedades artificiais, corremos o risco de gerar resistência social e reduzir o apoio espontâneo que já existe.
Defendemos a construção de políticas públicas que sejam:
- Mensuráveis: Com indicadores claros de impacto
- Transparentes: Com prestação de contas rigorosa
- Sustentáveis: Que se mantêm no longo prazo
- Democráticas: Que respeitam a autonomia individual
- Eficientes: Que maximizam resultados com recursos disponíveis
O Caminho da Educação e Conscientização
A verdadeira transformação na causa animal passa pela educação e conscientização da população. Propostas como inclusão de bem-estar animal no currículo escolar municipal, campanhas de conscientização sobre castração e guarda responsável, e programas de educação continuada para funcionários públicos podem gerar mudanças culturais duradouras.
Transparência, Gestão e Resultados: Os Pilares da Mudança
Como defensor da transparência na gestão pública, acredito que qualquer política voltada à causa animal deve incluir:
- Relatórios mensais de resultados
- Plataforma digital de acompanhamento de recursos
- Auditorias independentes
- Indicadores de impacto social mensuráveis
- Participação da sociedade civil na fiscalização
Transformando o Obrigatório em Voluntário
Sugiro que a Câmara Municipal considere uma emenda ao projeto original, transformando a obrigatoriedade em programa voluntário estruturado, com as seguintes características:
- Adesão Voluntária: Organizadores de eventos podem aderir ao programa mediante benefícios fiscais
- Flexibilidade de Doação: Participantes escolhem entre ração, alimentos ou doação em dinheiro
- Transparência Total: Plataforma digital mostra destinação de cada doação
- Reconhecimento Público: Eventos participantes recebem certificação municipal
- Mensuração de Impacto: Relatórios trimestrais de resultados
Maringá, a Hora da Mobilização Inteligente É Agora
Maringaenses, nossa cidade tem potencial para ser referência nacional em bem-estar animal, mas precisamos escolher o caminho certo.
Conclamo todos os leitores a:
- Participar ativamente das discussões públicas sobre este projeto na Câmara Municipal
- Cobrar transparência dos vereadores sobre a real eficácia da proposta
- Propor alternativas baseadas em voluntariado e parcerias sustentáveis
- Fiscalizar a gestão atual da Secretaria de Proteção e Bem-Estar Animal
- Apoiar organizações locais que já trabalham na causa animal de forma voluntária
A mudança verdadeira nasce da conscientização, não da imposição. Vamos construir juntos uma Maringá que protege seus animais através da educação, parceria e gestão eficiente – não através de obrigatoriedades que podem dividir a sociedade.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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