Última atualização em 17/01/2026 por Alan Zampieri
Quando o Servidor Adoece, a Cidade Inteira Sente
Nas últimas semanas, a direção do Sindicato dos Servidores Municipais de Maringá (Sismmar) se reuniu com representantes da administração municipal para debater denúncias graves na UPA Zona Norte. Os relatos são preocupantes: casos reiterados de assédio moral, marmitas com alimentos azedos, mau cheiro, objetos estranhos e até fios de cabelo nas refeições fornecidas aos servidores. Mais que problemas pontuais, essas denúncias revelam uma desvalorização sistemática dos profissionais que estão na linha de frente do atendimento à população.
Saúde é Dever de Todos – Mas Responsabilidade Começa com Quem Governa
A Constituição Federal de 1988 é cristalina ao estabelecer que “a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”. Quando falamos em “Estado” com E maiúsculo, estamos nos referindo à responsabilidade compartilhada entre União, estados e municípios.
O Ciclo Vicioso da Desvalorização Profissional
A situação na UPA Zona Norte não é um fenômeno isolado em Maringá. Em maio de 2025, o prefeito Silvio Barros visitou a unidade após denúncias de demora no atendimento e atribuiu o problema à baixa produtividade de algumas equipes médicas, citando casos de profissionais que atenderam menos de três pacientes durante todo o plantão da tarde. Mas será que a baixa produtividade é causa ou consequência de um ambiente de trabalho deteriorado?
Estudos nacionais demonstram que a rotatividade de profissionais de saúde no Brasil é um problema crônico, especialmente na atenção primária. Pesquisas apontam que as principais causas dessa rotatividade incluem a precarização do vínculo de trabalho, condições precárias, sobrecarga, ausência de planos de carreira estruturados e, principalmente, a falta de reconhecimento profissional.
No setor da saúde especificamente, o assédio moral atinge proporções alarmantes. Pesquisa realizada no Rio de Janeiro identificou que auxiliares de enfermagem foram o grupo profissional com maior proporção de vítimas de assédio moral (22,7%), e que colegas, supervisores ou administradores compuseram o mais importante grupo de agressores (48,7%). O mais preocupante: embora 38,5% das vítimas tenham relatado a violência a superiores, apenas 20% relataram que alguma providência foi tomada.
Esse cenário cria um ciclo vicioso devastador: profissionais desvalorizados perdem a motivação, a produtividade cai, o atendimento piora, a população reclama, a pressão sobre os servidores aumenta, e o ciclo recomeça com ainda mais intensidade.
Valorização Não é Favor – É Investimento Estratégico
Quando falamos em valorização dos servidores da saúde, não estamos defendendo privilégios ou benefícios desproporcionais. Estamos falando de garantir condições básicas de trabalho, remuneração compatível com a responsabilidade e o risco da profissão, planos de carreira estruturados, formação continuada e, principalmente, um ambiente de trabalho digno e livre de violências.
Em março de 2025, a Prefeitura de Maringá concedeu reajuste salarial de 4,90% aos servidores municipais, superando o INPC do período que foi de 4,87%. O vale-alimentação também foi reajustado para R$ 528, representando um ganho de 4,6%. São avanços importantes, mas que precisam ser acompanhados de outras medidas estruturantes.
A experiência de municípios brasileiros que se destacaram na gestão da saúde pública mostra que a valorização profissional é um dos pilares do sucesso. Curitiba, por exemplo, investiu na digitalização de serviços, gestão por metas e valorização do servidor, o que resultou em reconhecimento nacional como uma das capitais com melhor gestão pública em 2024. Florianópolis lidera entre as capitais no Ranking de Competitividade dos Municípios, com destaque em saúde, segurança e inovação.
Indicadores de Desempenho: Transparência e Eficiência Andam Juntas
Defender a valorização dos servidores não significa abrir mão da exigência por resultados. Pelo contrário: profissionais valorizados e motivados respondem melhor às cobranças por desempenho. O que não podemos aceitar é cobrar produtividade sem oferecer as condições necessárias para que o trabalho seja realizado com qualidade.
O Papel Fundamental dos Conselhos Municipais
O Conselho Municipal de Saúde de Maringá tem papel estratégico na fiscalização e no controle social do SUS. Como instância colegiada superior, deliberativa e fiscalizadora das ações de saúde, o Conselho deve atuar de forma mais incisiva na cobrança por melhores condições de trabalho para os servidores e na verificação do cumprimento de indicadores de qualidade.
Experiências Inspiradoras para Maringá Seguir
O Estado de Santa Catarina desenvolveu o Programa de Valorização dos Hospitais, que visa elevar a qualidade e eficiência dos serviços de saúde por meio de investimentos em infraestrutura, tecnologia e, principalmente, capacitação profissional. O programa busca melhorar o acesso e a experiência dos pacientes, além de promover a valorização dos profissionais de saúde, garantindo um atendimento mais humanizado e eficaz.
O Programa de Atenção ao Servidor (SER SC), idealizado em 2020, tem uma preocupação especial com a vulnerabilidade física e mental dos servidores. Entre suas principais ações estão encontros online mensais focados no autoconhecimento e autodesenvolvimento, canal de compartilhamento de mensagens semanais reconhecendo profissionais que promovem impacto positivo, e troca de experiências entre servidores veteranos e recém-chegados.
São Paulo, a maior cidade do país, estruturou planos de cargos, carreiras e salários específicos para a saúde, com legislações detalhadas que regulamentam a linha do tempo da carreira do servidor e estabelecem critérios claros de progressão. A Divisão de Desenvolvimento de Carreiras e Qualidade de Vida no Trabalho busca mapear e gerenciar a carreira do servidor municipal por meio de ações e investimentos em formação e avaliação de desempenho.
Maringá pode e deve se inspirar nessas experiências para desenvolver políticas próprias, adaptadas à nossa realidade. A cidade já demonstrou capacidade de inovação e gestão eficiente em diversas áreas – chegou a hora de aplicar esse mesmo protagonismo na valorização dos servidores da saúde.
Sensibilizar, Propor e Mobilizar
É hora de reconhecermos que os servidores da saúde não são o problema – são parte fundamental da solução. Quando eles adoecem, quando são desrespeitados, quando trabalham em condições precárias, toda a cidade perde. Quando são valorizados, capacitados e reconhecidos, toda a população ganha.
A situação da UPA Zona Norte nos deu um alerta que não podemos ignorar. É hora de a sociedade maringaense se mobilizar para exigir mudanças estruturais na forma como tratamos nossos servidores da saúde.
Maringá pode ser exemplo nacional de como uma cidade de médio porte transforma sua saúde pública através da valorização dos servidores. Temos potencial, temos recursos, temos competência técnica. O que precisamos agora é decisão política e mobilização social para fazer acontecer.
O momento é agora. A responsabilidade é de todos nós. A saúde de Maringá agradece.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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