Última atualização em 13/02/2026 por Alan Zampieri
Por que falar de novas unidades de urgência e emergência agora
Quem vive em Maringá sente no dia a dia o peso de uma cidade que cresce rápido, mas ainda enfrenta velhos problemas na saúde. A cada reportagem sobre demora na UPA Zona Norte ou na UPA Zona Sul, redes sociais se enchem de relatos de gente esperando horas, muitas vezes com criança no colo ou idoso ao lado. Não é conversa de grupo de WhatsApp, é a realidade de quem roda a cidade na madrugada atrás de atendimento.
Nesse cenário, o anúncio dos terrenos para as novas estruturas de urgência da Zona Leste e da Zona Oeste não é apenas mais uma notícia de política. É um movimento concreto que toca um dos pontos mais sensíveis da vida maringaense: a segurança de saber que, em caso de urgência, haverá uma porta aberta, relativamente perto de casa, com equipe, estrutura e respeito.
Ao mesmo tempo, fica aquela pergunta que ecoa nos corredores das empresas, das igrejas e dos órgãos públicos: novas UPAs em Maringá, agora PAMs, vão realmente resolver o problema ou só vão espalhar a fila pela cidade? É essa resposta que precisa ser construída com dados, responsabilidade e propostas viáveis.
De promessa de campanha à obra no chão de Maringá
Nas eleições de 2024, a construção de duas novas unidades de pronto atendimento – uma na Zona Leste e outra na Zona Oeste – virou tema central dos debates, das colunas políticas e dos programas de rádio. A ideia era simples de entender para o eleitor: hoje há duas grandes portas de urgência (Zona Norte e Zona Sul, além do PAC voltado às crianças); com mais duas, o atendimento seria melhor distribuído pelo mapa da cidade.
Passado o calor da campanha, o desenho mudou um pouco. Em vez de unidades no padrão federal de UPA, o município aderiu ao programa estadual de Pronto Atendimento Municipal (PAM). O Governo do Paraná, que já lançou dezenas de projetos de PAMs, Unidades Mistas e maternidades – somando investimentos na ordem de R$ 181 milhões em 45 novas estruturas de saúde em 2024 –, passou a oferecer a Maringá o mesmo pacote técnico: projeto arquitetônico padrão, repasse financeiro e integração à rede estadual.
Para a cidade, isso significa:
- Dois PAMs (Leste e Oeste), com 812,89 m² cada;
- Atendimento 24 horas, com foco em baixa e média complexidade;
- Capacidade teórica de cerca de 2,1 mil atendimentos mensais por unidade;
- Recursos de construção bancados em grande parte pelo Estado, com a Prefeitura de Maringá assumindo custeio e gestão.
Em política pública municipal, esse arranjo tem um lado positivo e um lado de alerta. É positivo porque reduz o impacto no orçamento local para erguer as obras. E acende um alerta porque, sem planejamento financeiro consistente, o risco é inaugurar prédios e, no meio do caminho, descobrir que não há dinheiro ou gente suficiente para manter plantões completos.
Por que duas novas portas de urgência importam tanto para o maringaense
A experiência do maringaense com a rede de saúde mostra um padrão: quando não se consegue resolver o problema na UBS ou não há vaga rápida para consulta e exame, o caminho “natural” passa a ser a UPA. A própria Prefeitura de Maringá já admitiu, em campanhas educativas, que cerca de 70% dos atendimentos que hoje chegam à rede poderiam ser resolvidos na atenção básica, sem necessidade de urgência.
Um levantamento jornalístico no feriado de 1º de maio de 2025 ilustra bem essa distorção. Somando UPA Zona Norte e UPA Zona Sul, foram 851 atendimentos em um único dia. Desse total, mais da metade era de casos classificados como verde – pouco urgentes – segundo o protocolo de triagem. Na Zona Norte, 59,8% dos atendimentos eram de baixa gravidade; na Zona Sul, 52%.
Visualmente, esse perfil de atendimento pode ser resumido assim:

Atendimentos por classificação de risco nas UPAs de Maringá em 1º de maio de 2025
O efeito prático é conhecido por quem passa a madrugada no plantão: pessoas com quadros mais graves dividem a mesma sala de espera com quem está ali por conta de febre baixa, dor de garganta ou questões que poderiam ser resolvidas com agendamento adequado na rede básica. E, por consequência, a sensação de “fila que não anda” atinge toda a população.
Ao criar duas novas portas de urgência em regiões muito habitadas de Maringá, o sistema ganha um potencial de distribuição melhor dessa demanda. Bairros hoje “esmagados” entre deslocar-se à Zona Norte ou à Zona Sul terão unidades mais próximas, o que faz diferença especialmente para famílias de menor renda, sem carro e dependentes de transporte coletivo.
Porém, essa vantagem só se concretiza se houver:
- Integração real com as UBSs, para que a atenção básica não siga esvaziada;
- Protocolos claros de classificação de risco, respeitando quem realmente precisa de urgência;
- Gestão firme das escalas e da produtividade, evitando plantões em que médicos atendem muito menos do que seria o razoável.
O outro lado da moeda: filas eletivas e servidores sobrecarregados
Enquanto a discussão pública se concentra nas urgências, o drama silencioso da saúde maringaense continua nas filas de consultas especializadas, exames e cirurgias eletivas. Há mais de uma década, reportagens locais já mostravam mais de 26 mil pessoas na fila por consultas do SUS com especialistas na cidade, por falta de oferta e de organização adequada da rede.
Houve avanços em transparência. Hoje, existe um sistema que permite ao cidadão consultar sua posição na fila de exames e especialidades do SUS em Maringá, pela internet, seja via portal municipal ou por sistemas integrados com o Governo do Paraná. Isso atende a uma exigência de transparência nas filas do SUS, também prevista em legislação estadual específica.
Na Câmara Municipal de Maringá, tramita o Projeto de Lei nº 17.766/2025, que estabelece prazo máximo de 60 dias para realização de consultas e exames de maior prioridade, permitindo que o Executivo utilize recursos como telemedicina, parcerias com clínicas conveniadas e uso de tecnologia para organizar as filas. É um movimento relevante, mas ainda em fase de debate político e regulamentação.
Além do tempo de espera, outro ponto delicado é a condição de quem trabalha na linha de frente. Em artigo anterior já publicado neste site, foram relatadas denúncias de alimentação de baixa qualidade, assédio e desorganização na gestão da UPA Zona Norte, que afetam diretamente a saúde mental e o clima de trabalho dos servidores. Tudo isso em uma cidade que já promove ações de conscientização em saúde mental, como campanhas e parcerias com universidades, mas ainda não estruturou uma política robusta voltada especificamente para quem está no plantão.
Sem cuidar de quem cuida, novas unidades tendem a repetir os mesmos problemas em endereços diferentes.
O que outras cidades fizeram – e o que Maringá pode adaptar
Para não reinventar a roda, vale olhar para experiências de outras cidades com porte semelhante ou maior.
Corujão da Saúde em São Paulo: fila encarada de frente
Na capital paulista, o programa “Corujão da Saúde” foi criado para reduzir filas gigantes de exames e consultas. Em uma das edições, a meta foi praticamente zerar uma fila de 485,3 mil exames em cerca de três meses, utilizando a capacidade ociosa de hospitais públicos, filantrópicos e privados credenciados, principalmente em horários noturnos e fins de semana.
O segredo não estava apenas no mutirão em si, mas em:
- Metas públicas e mensuráveis;
- Contratos claros com prestadores;
- Monitoramento diário da produção;
- Divulgação de resultados para a sociedade.
A lógica pode ser adaptada para Maringá: enfrentar, com seriedade e prazo definido, as filas hoje concentradas em especialidades como ortopedia, cardiologia, oftalmologia e exames de imagem.
Painéis em tempo real nas UPAs: participação informada
No Distrito Federal, o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde implantou painéis eletrônicos em tempo real mostrando, em cada UPA, o número de pacientes em espera, o tempo estimado por classificação de risco e a quantidade de profissionais em plantão. Essas informações ficam disponíveis em monitores nas recepções e também na internet.
Esse tipo de transparência diminui a sensação de desrespeito, permite que a população compreenda por que um caso grave passa na frente de um mais leve e fornece dados objetivos para a gestão ajustar escala, fluxos internos e protocolos.
Transparência em filas: mais do que obrigação legal
Municípios como Maricá (RJ) publicam listas de espera de consultas, exames e procedimentos diretamente na área de transparência do site, detalhando número de pessoas por especialidade e tempo médio de espera. Não resolve tudo, mas cria um padrão mínimo de respeito ao cidadão.
Maringá já deu alguns passos nesse sentido, mas ainda há espaço para avançar na qualidade, frequência e usabilidade das informações, especialmente em linguagem clara para o cidadão comum, e não apenas para especialistas.
O que as novas UPAs em Maringá podem representar
As novas UPAs em Maringá, agora reconfiguradas como PAMs, têm potencial para mudar o mapa da urgência na cidade. Com duas novas portas de atendimento 24h nas zonas Leste e Oeste, a rede ganha capilaridade, a população se desloca menos e a pressão se distribui melhor entre as unidades.
Mas o sucesso dessa política não será medido apenas na foto da inauguração. Dependerá de:
- Como a Prefeitura de Maringá organizará o custeio e a gestão dessas unidades;
- Se as filas de exames e consultas serão enfrentadas com programas estruturados, e não apenas com discursos;
- Se os servidores que seguram a linha de frente terão condições dignas, apoio emocional e respeito;
- Se haverá transparência real sobre filas, tempos de espera e resultados.
Para quem acompanha notícias de política, informações com base em dados da política maringaense e o dia a dia da cidade, o recado é direto: este é o momento de discutir a fundo não só onde os prédios serão construídos, mas como vão funcionar, quanto vão custar e para quem, de fato, vão servir.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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