Última atualização em 01/05/2026 por Alan Zampieri
Quando o trilho se encontra com a cidade: a conversa que Maringá e Sarandi precisavam ter
Que tal pensar em uma cidade dividida pela metade? Pois é assim que muitos sarandienses acordam diariamente. Cerca de trinta mil pessoas cruzam a linha férrea todos os dias entre Sarandi e Maringá — um fluxo que demonstra a força econômica dessa área metropolitana, mas também expõe um gargalo estrutural que não dá mais para ignorar. A ferrovia passa por Sarandi como um muro invisível, partindo bairros inteiros e criando congestionamentos que consomem tempo, combustível e, acima de tudo, vidas.
Mas aqui vem a boa notícia: há movimento no tabuleiro. Em fevereiro de 2026, representantes das duas prefeituras, munidos de dados técnicos e vontade política, sentaram-se para traçar um mapa do futuro. O assunto? O rebaixamento da linha férrea — uma obra que pode transformar completamente o cenário de mobilidade na região.
Essa conversa não é nova. Mas o contexto é completamente diferente agora.
Por que agora é diferente: dados que falam mais alto que promessas
O governo federal confirmou recursos no Orçamento da União para 2026, direcionando aproximadamente R$ 700 milhões para essa obra no trecho de Sarandi. Não é pouco. Mas mais importante que o dinheiro é entender por que esse investimento faz sentido econômico agora.
Sarandi é o município paranaense com a maior projeção de crescimento populacional até 2050: 61%. Atualmente, cerca de 118 mil habitantes. Em 2050, ultrapassará 190 mil pessoas. Londrina terá 576 mil. Maringá, 474 mil. Esses números não são simples previsões estatísticas — eles revelam um fenômeno real de migração de pessoas dos grandes centros para cidades médias com custo de vida mais acessível.
Mas infraestrutura não cresce sozinha com a população. Cresce antes dela, ou fica-se para trás.
O desafio real: segurança sem negociação
Enquanto os gestores debatem planejamento urbano, as estatísticas de acidentes falam uma linguagem que não deixa margem para interpretação. No Brasil, 75% dos acidentes ferroviários ocorrem em passagens em nível — aqueles cruzamentos ferro-rodoviários tão comuns em cidades que cresceram ao redor das ferrovias.
Em Minas Gerais, apenas entre 2020 e 2025, foram registrados 632 acidentes em passagens de nível, resultando em 126 mortes. São Paulo teve 624 acidentes, 123 óbitos e 250 feridos. O Brasil, como um todo, contabilizou 3.133 acidentes nesse período, com 476 mortes.
Em Sarandi, especificamente, entre 2019 e 2022, foram registrados 9 acidentes em cruzamentos críticos. A resposta da administração municipal foi tecnológica: instalou semáforos sensoreados nos cruzamentos da Rua América e Atílio Salvalagio. Mas tecnologia paliativamente não resolve o problema estrutural.
O rebaixamento elimina o problema na raiz. Sem passagens de nível, não há colisão entre trens e veículos. Trata-se de segurança pública, não de luxo urbano.
O que significa a cooperação técnica entre as cidades
Na reunião de fevereiro de 2026, as prefeituras de Maringá e Sarandi, com suporte técnico do Ipplam e da Associação Comercial e Empresarial de Maringá (Acim), formalizaram um comitê intermunicipal para coordenar o projeto.
Esse comitê não é apenas administrativo. É o espaço onde decisões técnicas começam a ganhar forma de execução. O trabalho previsto inclui:
Definição de demandas infraestruturais — quais desapropriações são necessárias, quais vias precisam ser readequadas, como manter a operação ferroviária durante as obras.
Alinhamento com o DNIT — o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes é o órgão que vai analisar tecnicamente o projeto e liberar sua execução.
Protocolo junto ao PAC ou emendas parlamentares — o caminho para que o dinheiro federal chegue efetivamente à obra.
Esse tipo de articulação interinstitucional é o que frequentemente falta em grandes projetos brasileiros. Tem gente culpabilizando falta de dinheiro quando, na verdade, o problema é falta de coordenação. Aqui estamos vendo o oposto: dinheiro existe, mas coordenação política também.
A lição que Maringá já aprendeu
Não foi fácil. Envolveu desapropriações, complexidade estrutural, gestão de impactos durante a construção. Mas o resultado foi concreto: integração urbana, redução de congestionamentos, segurança aumentada.
Sarandi agora tem a vantagem de aprender com essa experiência. O comitê pode consultar técnicos que estiveram envolvidos naquela obra, otimizar prazos e custos.
Mobilidade metropolitana: o contexto maior
Alguns podem perguntar: por que gastar R$ 700 milhões em rebaixar ferrovia? Existe alternativa mais barata?
Tecnicamente, sim. Viadutos e passarelas custam menos que rebaixamento. Mas rebaixamento é mais eficiente do ponto de vista urbanístico. Cria condições para desenvolvimento urbano integrado, favorece circulação de pedestres, permite uso do espaço onde antes havia barreira física.
“Obra boa não é a mais barata, é a que resolve o problema pelos próximos 50 anos. Rebaixar a linha férrea é investir em segurança hoje para não chorar estatísticas amanhã.”
Além disso, há um projeto maior no horizonte: o Trem Pé Vermelho. Esse projeto de transporte ferroviário de passageiros (VLT) conectaria 13 municípios do Norte do Paraná — de Paiçandu a Ibiporã, passando por Maringá, Sarandi e Londrina. O estudo da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), divulgado em janeiro de 2025, estimou que esse trem poderia transportar 36 mil passageiros por dia.
A obra de rebaixamento em Sarandi não é pré-requisito para o Trem Pé Vermelho, mas facilita imensamente sua viabilidade operacional. Ferrovias urbanas em cidades onde já existe divisão territorial por trilhos funcionam menos bem que em cidades onde existe integração.
O que a região espera: uma conversa com lideranças locais
Nas conversas informais que circulam por redes sociais e grupos de WhatsApp de lideranças comunitárias de Maringá e Sarandi, o sentimento é misto: esperança, mas também ceticismo histórico.
“Esse projeto era prioridade 70 no ranking federal há alguns anos. Agora temos dinheiro confirmado. Por que agora?” — essa é a pergunta que várias pessoas estão fazendo.
Pontos de melhoria: o que não podemos esquecer
Nem tudo é simples. Há desafios reais:
Desapropriações — nem sempre consensuais, requerem processos jurídicos claros e justos.
Impactos durante obra — uma trincheira aberta em meio a cidade urbana gera congestionamentos temporários. Precisa ser bem comunicado e mitigado.
Coordenação entre atores — Rumo (concessionária operadora da ferrovia), Município, Estado, União, Ipplam, empresários. Todos têm interesses, nem sempre alinhados. Comitês intermunicipal precisam ser de fato operativos, não apenas formais.
Sustentabilidade ambiental — a obra deve cumprir protocolos ambientais. Há áreas verdes que precisam ser preservadas ou compensadas.
Esses pontos não invalidam o projeto. Apenas indicam que gestão competente é necessária.
Por que isso importa para você que vive em Maringá
Você que trabalha em Maringá mas mora em Sarandi (ou vice-versa). Você que precisa deslocar-se entre cidades para acessar serviços, compras, educação. Você que se importa com segurança viária.
Esse projeto é sobre qualidade de vida prática. Significa menos tempo no trânsito, menos risco de acidentes no cruzamento com ferrovia, cidades mais conectadas.
É também sobre proatividade governamental. Significa que gestores estão olhando para daqui 25 anos, quando Sarandi terá 190 mil habitantes, e perguntando-se: qual infraestrutura precisamos ter pronta hoje para que essas pessoas vivam bem?
Gestão competente como opção política
Essa história não é apenas sobre rebaixar uma ferrovia. É sobre escolher gestão competente como opção política. Sobre sentar-se à mesa, colocar dados técnicos na frente, coordenar atores diversos, e sair com um plano que faz sentido.
Maringá e Sarandi têm uma oportunidade: mostrar que cidades médias paranaenses conseguem executar projetos de grande envergadura quando há coordenação clara, recursos disponíveis e compromisso com resultados mensuráveis.
Isso inspira. E em tempos de desconfiança na política, inspiração importa.
Acompanhe esse projeto. Participe quando puder. Cobre transparência, sempre. Porque mobilidade urbana de qualidade não é luxo — é direito. E direitos se conquistam participando.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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