Última atualização em 27/01/2026 por Alan Zampieri
Quando “investimento em parcerias” quer dizer R$ 1,9 milhão em passagens e diárias

Evolução de Gastos com Diárias de Viagens – Prefeitura e Câmara de Maringá (2023-2025)
Portal da Transparência revela o número: a Prefeitura e a Câmara de Maringá gastaram R$ 1.809.805,42 em diárias para viagens em 2025. Somando a Câmara (R$ 91.445), chegamos a aproximadamente R$ 1,9 milhão para deslocamentos de agentes públicos.
O prefeito Silvio Barros visitou Portugal, Alemanha, Inglaterra e Japão. Secretários voaram para Las Vegas para participar de feira de armamentos. Vereadores acompanharam comitivas internacionais. Uma delegação de 5 pessoas gastou R$ 60 mil conhecendo Festival Medieval em Portugal, para depois importar a ideia para Maringá.
Tudo documentado, tudo legal, tudo com “caráter técnico”.
Mas aqui entra a questão que ninguém responde: qual foi o retorno?
Os Números que Contam a História
2025 estabeleceu recorde de despesa, superando 2023 (quando gastaram R$ 914 mil). Comparado a 2024 (R$ 695 mil), representa aumento de 160%.
O que explica esse crescimento dramático em um só ano?
Viagens Internacionais Contam Histórias:
Prefeito Silvio Barros — Europa (fevereiro 2025):
- Destinos: Portugal, Alemanha, Inglaterra
- Duração: 10 dias
- Diárias: R$ 27.270
- Justificativa oficial: “Feira de Natal em Frankfurt, parceria para Festival Medieval em Leiria, workshop sobre mobilidade urbana em Londres”
Prefeito Silvio Barros — Japão (junho 2025):
- Destinos: Kakogawa (cidade-irmã de Maringá)
- Duração: 9 dias
- Diárias: R$ 30.689
- Justificativa oficial: “Celebração 130 anos Tratado de Amizade Brasil-Japão”
Comitiva Brasil-Portugal (julho 2025):
- Pessoas: 3 secretários, vice-prefeita, 2 assessores
- Destino: Portugal (Leiria) para conhecer Festival Medieval
- Duração: ~7 dias
- Diárias: R$ 60 mil
- Justificativa: “Conhecer atração para replicar em Maringá”
Secretários em Las Vegas (janeiro 2026):
- Pessoas: Luiz Alves (Segurança Pública) + Vagner Mussio (Infraestrutura/Defesa Civil)
- Destino: Shot Show 2026 (maior feira de armamentos/segurança do planeta)
- Duração: 7 dias (18-25 janeiro)
- Diárias: R$ 30 mil (R$ 15 mil cada)
- Justificativa: “Conhecer tecnologias de segurança pública e Defesa Civil”
Vereadores também viajaram. Akemi Nishimori (PSD) recebeu R$ 30.402 para representar Câmara no Japão. Pastor Sandro (União) recebeu R$ 11.140 para acompanhar comitiva em Portugal.
Total apenas nessas grandes viagens: ~R$ 190 mil.
O restante dos R$ 1,9 milhão? Deslocamentos menores: capacitações em Brasília, participação em seminários em capitais, reuniões em municípios vizinhos.
A Questão que Ninguém Levanta
Em teoria, viagens oficiais trazem retorno: conhecimento técnico, parcerias, inovação, atração de investimento, turismo.
Silvio Barros defende exatamente isso: “Viagem boa é a que traz resultado: investimento, parceria, inovação. Todas as agendas foram trabalho, não passeio”.
Suportemos que seja verdade.
Então a pergunta muda de foco: qual foi o ROI (retorno sobre investimento)?
Festival Medieval de Leiria virará realidade em Maringá em 2026? Se sim, quantos turistas trarão? Quanto movimentarão na economia local? Compensarão os R$ 60 mil de diárias?
Tecnologias conhecidas em Las Vegas foram adquiridas pela Defesa Civil? Com que orçamento, sendo que setor já está enxuto?
Parcerias com Leiria e Kakogawa geraram acordos formais? Porque se geraram, precisam estar documentadas — e prefeito deveria divulgar esses documentos.
Não encontramos esse retorno divulgado.
A Câmara, quando perguntada, afirmou que “as viagens dos servidores se refletem em recursos para a cidade”, mas “sem detalhar as conquistas”.
Tradução: sem comprovação mensurável.
Agora a Crítica Liberal à Irresponsabilidade Fiscal
Aqui entra meu argumento como defensor de eficiência administrativa e responsabilidade com dinheiro público.
Não sou contra viagens oficiais. Governos competentes viajam. Participam de feiras, negociam parcerias, atualizam-se em tendências globais. É legítimo.
Mas há três problemas com o padrão de Maringá em 2025:
1. Prefeitura Superou Orçamento Previsto
A Lei Orçamentária Anual (LOA) 2025 previa R$ 1,5 milhão para diárias. Prefeitura gastou R$ 1,809 milhão. Diferença: +R$ 300 mil não previsto.
Em contexto de ajuste fiscal (aumento de IPTU em 30%, redução de investimentos), como administração justifica gastar além do orçamento em viagens?
Resposta que não veio: não há.
2. Câmara Multiplicou Gastos por 12
Em 2024, Câmara gastou R$ 7.635 com diárias. Em 2025, gastou R$ 91.445.
O aumento é explicável: em 2025, Câmara recebeu mais 8 vereadores (aumentou de 15 para 23). Mais parlamentares = mais possibilidade de viagem.
Mas houve gestão dessa demanda? Parece que não. Presidente de Câmara aprova pedidos de viagem, sem aparente filtro técnico sobre justificativa ou retorno.
Comparação com Cidades Similares
Aqui preciso ser honesto: não encontramos dados públicos de cidades comparáveis (400 mil habitantes, mesmo porte) que nos permitam fazer benchmark.
Isso por si é problema: não há norma transparente entre municípios sobre o que é gasto razoável com diárias.
A Lei de Responsabilidade Fiscal não limita diárias — apenas limita despesa total com pessoal. Então, teoricamente, um município pode gastar X% com folha, sendo tudo legal.
Mas “legal” não é sinônimo de “eficiente”.
Tempo de Escolher Prioridades
Maringá atingiu números recordes em gastos com viagens em 2025. Cidade melhorou em rankings de qualidade de vida, IDEB está em 7,2 — essas são conquistas reais.
Mas viagens não construíram escolas nem reformaram CMEIs. Viagens não resolveram horas extras milionárias. Viagens não criaram vagas de infraestrutura.
Não estou dizendo para parar de viajar. Estou dizendo: seja transparente sobre retorno. Meça. Publique. Permita que cidadão julgue se valeu a pena.
Porque dinheiro público é dinheiro que sai da educação, saúde, infraestrutura — setores que, conforme dados anteriores deste blog, têm déficit crônico.
A Prefeitura alega que viagens trazem “inovação e parcerias”. Maringá pode alegar que precisa de inovação em… gestão fiscal responsável.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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