Última atualização em 16/01/2026 por Alan Zampieri
A Inconstitucionalidade Gritante da Proposta

Imagem de: Defensoria Pública do Estado do Paraná
Como alguém que passou anos estudando direito constitucional, preciso ser claro: esse projeto é flagrantemente inconstitucional. A Constituição Federal de 1988 é cristalina no artigo 5º, inciso IX: “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.
O projeto protocolado estabelece exatamente isso: censura prévia. Ao definir que será proibida “qualquer manifestação que extrapole a liberdade artística para promover agenda ideológica”, ele cria um mecanismo de controle prévio do conteúdo artístico. Quem vai decidir o que é “agenda ideológica”? Quem vai determinar quando um artista “extrapola” a liberdade artística?
O Caso do Amazonas: Inspiração Perigosa
É exatamente o que não aconteceu em Maringá. O projeto foi protocolado sem qualquer consulta prévia ao setor cultural. Numa cidade que mantém consultas públicas para escolher até o local da Virada Cultural, é no mínimo estranho que uma lei restritiva seja proposta sem ouvir os principais afetados.
O Setor Cultural Maringaense: História de Luta Contra a Censura
Nossa cidade tem histórico recente de projetos similares. Em 2024, a Câmara derrubou projeto da então vereadora Cris Lauer que proibia contratações culturais relacionadas à violência, racismo e drogas. O prefeito Ulisses Maia vetou o projeto considerando os protestos da classe artística, que o considerou “uma forma de censura prévia”.
O Conselho Municipal de Políticas Culturais emitiu nota de repúdio na época, e manifestantes comemoraram quando o veto foi mantido. A diferença é que dessa vez não houve tempo para o debate. O projeto foi protocolado em 23 de setembro e já está tramitando nas comissões.
As prioridades invertidas de nossa Câmara Municipal de Maringá
Agora vou ao ponto que mais me incomoda nessa história toda. Enquanto a preocupação da Câmara se resume em controlar o que os artistas podem ou não falar no palco, nossa cidade enfrenta problemas estruturais graves que deveriam ser a prioridade de qualquer legislador comprometido com o bem comum.
Em maio, um grave acidente no Contorno Sul matou duas pessoas – uma mulher de 34 anos e um adolescente de 15 anos. Testemunhas relataram que buracos na rodovia podem ter sido a causa. A Prefeitura precisou aplicar quase 200 toneladas de material asfáltico só no primeiro semestre para tampar buracos.
Em janeiro, a Avenida Alexandre Rasgulaeff foi interditada após o rompimento de uma galeria pluvial que causou erosão sob o asfalto. A Avenida Colombo segue com problemas de manutenção na discussão entre Prefeitura e DNIT.
Essa sim é a agenda que deveria ocupar nossos vereadores: infraestrutura, mobilidade urbana, saneamento, segurança pública. Problemas concretos que afetam a vida real dos maringaenses.
Propostas para uma Maringá Verdadeiramente Eficiente
Em vez de controlar o que artistas falam, nossa Câmara deveria estar discutindo:
Primeira: Plano emergencial de recuperação viária com cronograma público e transparente. Quantas ruas serão recapeadas por mês? Qual a meta de redução de buracos para 2026?
Segunda: Modernização da infraestrutura de drenagem para evitar novos rompimentos como o da Alexandre Rasgulaeff. Quantos quilômetros de galerias precisam ser substituídos?
Terceira: Programa integrado de mobilidade urbana que inclua ciclofaixas seguras, calçadas acessíveis e transporte público eficiente.
Quarta: Marco regulatório do sistema da cultura que fortaleça o setor sem censura, com editais transparentes, espaços adequados e políticas de longo prazo.
Quinta: Plano de revitalização urbana das regiões centrais, aproveitando nosso potencial turístico e cultural.
Esses sim são projetos de cidade, não discussões ideológicas que dividem e empobrecem o debate público.
Mobilização pela Democracia e Eficiência
Maringaenses, chegou a hora de mostrarmos que nossa cidade não aceita retrocessos democráticos disfarçados de moralidade. Não podemos permitir que a Câmara Municipal aprove projetos inconstitucionais enquanto problemas reais são negligenciados.
O que você pode fazer agora:
- Entre em contato com seu vereador e manifeste posição contrária ao projeto
- Acompanhe as reuniões da Comissão de Constituição e Justiça, abertas ao público
- Cobre dos vereadores foco nos problemas estruturais: buracos, drenagem, mobilidade
- Participe das consultas públicas culturais, mostrando que o setor deve ser ouvido
- Compartilhe informações corretas sobre direitos constitucionais e liberdade artística
Nossa Câmara Municipal precisa entender que representa uma cidade moderna, planejada, que valoriza a cultura e respeita a Constituição Federal. É hora de mostrarmos que Maringá merece legisladores focados em soluções, não em censura.
Juntos, podemos exigir uma política municipal mais eficiente, democrática e comprometida com os problemas reais dos maringaenses. A arte e a cultura devem ser protegidas, não perseguidas. A democracia deve ser fortalecida, não enfraquecida por projetos inconstitucionais.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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