Última atualização em 22/10/2026 por Alan Zampieri
68 blitze, 2 mil paradas e um dado que incomoda
No lançamento do Maringá pela Vida, a Semob apresentou o balanço do ano: 68 blitze, mais de 2 mil veículos abordados, 788 infrações, 295 remoções e quase 300 pessoas dirigindo sem habilitação.

Gráfico 1 – Balanço das blitze em Maringá até 14 de agosto de 2026. Fonte: Semob, via Portal Edson Valério.
Faça a conta comigo: quase 300 sem CNH em pouco mais de 2 mil abordados. É algo como um em cada sete motoristas parados. Não é detalhe burocrático: em 2021, o Programa Vida no Trânsito mostrou que 60% dos motociclistas mortos em Maringá estavam com a CNH irregular ou nem tinham o documento.
Os dados da própria Prefeitura indicam para onde olhar. Entre 2021 e 2026, 62% das mortes no trânsito foram de motociclistas ou garupas. Cerca de 70% das mortes de motociclistas acontecem à noite, e 53% das analisadas foram colisões laterais. O diagnóstico está certo, e a blitz noturna focada em motos faz sentido técnico.
Então, qual é o problema? Ele começa quando a gente tenta saber se as blitze em Maringá estão funcionando.
Do alívio de 2025 ao susto de 2026
2025 foi o melhor ano em décadas. Maringá passou dois meses seguidos sem mortes no trânsito pela primeira vez desde 2002, e o limite de 60 km/h no Contorno Sul derrubou as mortes na avenida de quatro, em 2024, para uma. Segundo a Prefeitura, a fiscalização intensificada e o recolhimento de veículos irregulares ajudaram na queda. O ano fechou com 33 mortes no perímetro urbano.
Em 2026, a curva virou. Até 13 de setembro, foram 34 mortes, contra 23 no mesmo período de 2025, alta de 48%. Agosto foi o mês mais letal em 19 anos. De janeiro a setembro, as 38 mortes formaram o pior resultado para o período em 12 anos: 24 motociclistas, 2 garupas, 10 pedestres, 1 ciclista e 1 motorista. Em outubro, a contagem chegou a 39, com três mortes no próprio Contorno Sul.

Gráfico 2 – Mortes no trânsito urbano em 2025 e 2026. Fontes: Semob, via Maringá Mais, Ping Fogo e Portal Edson Valério.
Repare na contradição. Em 2025, a fiscalização mais forte ajudou a explicar a queda. Em 2026, as blitze em Maringá continuaram nas ruas, 68 só até agosto, e as mortes subiram mesmo assim. Uma das duas leituras precisa ser revista: ou a fiscalização explicava menos a queda de 2025 do que se disse, ou a de 2026 não está mirando onde deveria. Sem dados por operação, ninguém consegue dizer qual.
Há ainda um dado que pede humildade a todos, a mim inclusive. Quando o movimento foi lançado, a cidade somava 29 mortes. No fim de setembro, eram 38: nove em sete semanas, já com a fiscalização reforçada. Isso prova que a blitz falhou? Não. Número pequeno engana, e comportamento leva tempo para mudar. Mas também não prova que funcionou. É aí que mora o problema.
Maringá já viu esse filme em 2010
Em julho de 2010, depois de um fim de semana com três mortes no trânsito, uma delas de uma criança de 3 anos, a então Secretaria de Transportes anunciou “tolerância zero”. A promessa era de blitze em todos os horários, para que as pessoas sentissem que estavam sendo fiscalizadas.
Um mês depois, veio o balanço: 1.747 notificações, 147 carros e 256 motos removidos. E cinco mortes desde 5 de agosto, o mesmo número do agosto anterior. O comandante do Pelotão de Trânsito ponderou que julho tinha registrado nove mortes e que muita gente estava regularizando documentos. Críticos e defensores tinham, cada um, um pedaço da verdade. Faltava um placar para decidir.
Aquele ano terminou com 100 mortes no trânsito. Em 2025, foram 33, com a ressalva de que os critérios de contagem mudaram ao longo do tempo. Ou seja: Maringá sabe reduzir mortes. Isso não veio de uma operação de emergência, e sim de anos de engenharia, radar, educação e fiscalização.
O roteiro, porém, insiste em se repetir: tragédia, anúncio de guerra, balanço de multas, próxima manchete. Fiscalização que só aparece depois da tragédia é pronto-socorro. Política pública é prevenção com prestação de contas.
Blitze em Maringá: cada boletim conta de um jeito
Desde agosto, a Prefeitura divulga balanços das operações quase toda semana. Reuni os que encontrei na imprensa local para ver se eles conversam entre si.
| Período | Operações | Abordagens | Autuações | Remoções | Outros registros | Fonte |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 2026 até 14/ago | 68 | mais de 2 mil | 788 | 295 | quase 300 condutores sem CNH | Portal Edson Valério |
| 13 e 14/ago | 4 | — | 376 | 63 | 1 prisão por embriaguez; num só ponto, 25 abordagens, 28 remoções e 42 profissionais | Ping Fogo |
| 20 a 22/ago | 4 | 327 | 302 | 26 | 11 recusas ao bafômetro; 16 condutores com problema na CNH; 2 prisões | Maringá Mais |
| 24 a 26/set | 6 | 112, em parte das operações | 72 | 15 | 1 prisão por embriaguez | Maringa.com |
“—” = dado não localizado no texto consultado. “Infrações” e “autos de infração” aparecem aqui como autuações.
Lembra do detalhe da Petrônio Portela? São 28 remoções para 25 abordagens. Pode haver explicação simples, como carro estacionado de forma irregular ou condutor que fugiu da abordagem. Mas a explicação não está no boletim, e é exatamente isso que um padrão resolveria. Até a unidade muda: em entrevista, o secretário de Mobilidade Urbana falou em mais de 385 veículos irregulares nas três últimas blitze; nos balanços, a conta aparece em infrações, autos ou abordagens.

Gráfico 3 – Média de autuações e remoções por operação nas blitze em Maringá, em quatro balanços de 2026, calculada a partir dos totais divulgados.
Dividindo os totais pelo número de operações, a média de autuações por blitz saltou de cerca de 12, no balanço até agosto, para 94 em meados do mês. No fim de setembro, voltou a 12. As remoções seguiram o mesmo desenho.
O que explica a gangorra? Pode ser boa notícia: o motorista percebeu a fiscalização e passou a andar na linha. Pode ser que a blitz mudou de lugar ou de horário. Pode ser só um jeito diferente de contar. Do lado de cá, ninguém consegue saber. E a promessa de triplicar a fiscalização noturna, foi cumprida? Também não há como conferir.
Não estou dizendo que a Semob trabalha mal. Estou dizendo que ela trabalha sem placar público, o que é diferente. E isso é ruim inclusive para quem trabalha bem, porque resultado que ninguém enxerga ninguém reconhece.
Radar presta contas. A blitz, ainda não
Aqui entra o advogado. A transparência que estou cobrando não é favor da gestão: é dever.
- A Constituição Federal, no art. 37, põe publicidade e eficiência entre os princípios de toda a administração pública.
- A Lei de Acesso à Informação, no art. 8º, manda divulgar informações de interesse coletivo por iniciativa própria, sem esperar pedido.
- O Código de Trânsito Brasileiro, no art. 1º, diz que trânsito seguro é direito de todos e dever dos órgãos de trânsito, que devem dar prioridade à defesa da vida.
Maringá, aliás, já aplicou esse raciocínio a um equipamento. A Lei 11.980/2025 exige estudo técnico e divulgação de informações sobre os radares de velocidade, e a Câmara de Maringá ainda aprovou a lei das películas refletivas nos radares. Já discutimos onde o radar fica e se ele aparece. Para as blitze em Maringá, que tiram carro e moto de circulação e podem terminar em prisão, não encontrei regra equivalente, nem na Câmara nem nos canais da Prefeitura. Se ela existe e eu não achei, corrijo aqui com o mesmo destaque.
E tem dinheiro público na mesa. De janeiro a agosto, a cidade arrecadou mais de R$ 41 milhões em multas, e o art. 320 do CTB permite aplicar essa receita em fiscalização, como mostrei no artigo sobre a máquina de multas de trânsito em Maringá. Quem paga a blitz tem o direito de ver o resultado dela.
Uma ressalva importante: transparência não é avisar onde vai ter blitz. Aviso prévio só ajuda quem bebeu. Transparência é mostrar, depois, onde teve, por que ali e o que mudou.
Fortaleza, Campinas e Rio já mostram o placar
Ninguém precisa reinventar a roda. Três experiências mostram o que as blitze em Maringá podem aprender.
| Onde | O que fez | Resultado divulgado | O que Maringá pode aproveitar |
|---|---|---|---|
| Fortaleza (CE) | Lei Seca rotineira, em todos os turnos e guiada por dados de risco; manual que padroniza os procedimentos das equipes em campo | Queda de 47,5% nas mortes atribuíveis ao trânsito entre 2014 e 2019, segundo publicação internacional; a autarquia de trânsito associa a Lei Seca à redução de 50% das mortes | Escolher o ponto pelo dado e padronizar o boletim |
| Campinas (SP) | Boletim mensal de óbitos da Emdec, com fatores de risco analisados pelo comitê do Programa Vida no Trânsito | De janeiro a julho de 2026, 26 mortes em vias urbanas contra 40 no mesmo período de 2025 (−35%); velocidade e falta de CNH respondem, cada uma, por 31% dos casos analisados | Ligar cada morte a um fator de risco, todo mês |
| Rio de Janeiro (RJ) | Operação Lei Seca diária desde 2009, com central de monitoramento e balanço por operação | 3,4 milhões de motoristas abordados em 26 mil blitze em 12 anos; índice de alcoolemia divulgado ponto a ponto | Publicar o resultado de cada blitz, por local |
Em Fortaleza, um gerente da autarquia de trânsito resumiu bem a lógica: a Lei Seca não existe para pegar quem bebeu num dia específico, e sim para que muita gente seja fiscalizada e muito mais gente perceba que a fiscalização existe. Concordo, e acrescento: para ser percebida, a fiscalização precisa ser contada.
Campinas usa o mesmo Programa Vida no Trânsito que Maringá adotou em 2017, com UEM, Samu e polícias. Lá, o boletim mensal liga cada morte a um fator de risco, e a fiscalização segue esse mapa. E Juiz de Fora, de porte próximo ao nosso, já publica mês a mês o que arrecada e aplica com multas, como mostrei no artigo sobre a destinação das multas.
Documentos, por favor (dos dois lados)
Volte comigo à Petrônio Portela, quinta-feira, dez e meia da noite. O agente pede a habilitação e o documento do veículo. O motorista entrega. Ninguém acha isso abuso: é a regra do jogo.
Proponho apenas que a regra valha para os dois lados. Na blitz, o agente confere os documentos do motorista. No Portal da Transparência, o motorista deveria poder conferir os documentos da blitz.
A responsabilidade de fiscalizar passa pela transparência.
As blitze em Maringá já provaram que encontram gente sem carteira, gente embriagada e até gente armada. Isso é mérito de quem está na rua de madrugada. Falta provar que elas também salvam vidas, e corrigir a rota quando não salvarem. É um debate público, e político no melhor sentido, que precisa sair das páginas policiais e entrar de vez nas notícias da política maringaense.

🔗 Leitura Complementar
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