Última atualização em 22/08/2026 por Alan Zampieri
Você já viveu essa cena. Sexta à tarde, o pessoal do centro comenta no grupo do prédio. Sábado, o ônibus desce no Terminal Urbano e a pessoa não precisa nem atravessar a avenida: o palco está ali, no estacionamento ao lado. Criança no ombro, cadeira de praia debaixo do braço e o cheiro do carrinho de pastel. Às oito da noite, um pernambucano de mais de cinquenta anos de estrada abre a boca e cinco ou dez mil vozes acompanham.
É bonito. E é caro? Depende do que você comparar. A Virada Cultural virou isso: o fim de semana em que a cidade inteira cabe numa praça. O que me incomoda, como advogado e professor que passa o dia lendo contrato e planilha, não é o valor. É outra coisa: na segunda-feira, quando o caminhão levar o palco embora, ninguém em Maringá vai conseguir dizer, com número, o que aconteceu.
O que a Cidade Canção está comprando neste fim de semana
Vamos ao que está publicado sobre a Virada Cultural 2026, porque dado vem antes de opinião.
A Prefeitura contratou Alceu Valença por R$ 358 mil, com extrato no Diário Oficial de 31 de julho. Kiko Zambianchi custa R$ 80 mil por cerca de 1h20 de apresentação, valor que inclui deslocamento, hospedagem e alimentação de artista e equipe. A Banda Mais Bonita da Cidade sai por R$ 32 mil. E as 14 atrações locais escolhidas por chamamento público somam R$ 42,5 mil.

Quanto custa cada palco da Virada Cultural?

Cachês contratados pela Prefeitura de Maringá, em R$ — edições de 2025 e 2026
Repare no que os números dizem sem precisar de adjetivo. Um único artista consome quase 70% de toda a verba artística declarada. O cachê de abertura equivale a 8,4 vezes tudo o que a cidade paga aos seus próprios músicos, dançarinos, DJs e circenses na mesma Virada Cultural. Na média, cada atração maringaense recebe cerca de R$ 3 mil, pouco mais do que os R$ 2,9 mil médios do edital de 2024, dois anos e uma inflação atrás.
Quatorze anos de Virada Cultural em Maringá, cinco endereços e nenhuma planilha comparável
A festa não nasceu ontem. Ela estreou em novembro de 2012, como o braço maringaense da Virada Cultural Paraná, uma parceria entre o governo estadual, a Prefeitura e o Sesi-PR, com 24 horas de programação no Centro de Convivência. Foi a primeira do interior do Estado. Em 2026, portanto, ela completa 14 anos. Passou por Erasmo Carlos, Karol Conká, Gal Costa, Sepultura, Marcelo D2, Roberta Sá, Emicida. Sobreviveu a duas edições on-line na pandemia. Virou marca da cidade.
Agora tente responder a uma pergunta simples: quanto Maringá investiu nesses 14 anos e o que recebeu de volta? Eu tentei. O que dá para montar é isto:
O QUE ESTÁ DOCUMENTADO SOBRE A VIRADA CULTURAL?
As lacunas de 2014 a 2018 não são falta de busca: são falta de fonte disponível. O portal antigo da Secretaria de Cultura (www3 e www2.maringa.pr.gov.br/cultura), onde as notas dessas edições foram publicadas, bloqueia acesso automatizado, e os veículos locais que cobriram o período saíram do ar ou removeram os arquivos. O que resta são duas vias documentais.
Olhe a coluna do meio e a de baixo. Datas que pulam de julho para novembro e voltam para agosto. E o endereço mudando quase todo ano: praça do antigo aeroporto, Vila Olímpica, agora Praça Raposo Tavares.
Testar local é legítimo. Testar sem medir é chute com verba pública.
Antes que alguém me leia errado: não sou do time que quer cortar cultura. Acho essa discussão pobre e, do ponto de vista da gestão, tecnicamente errada.
Os R$ 512,5 mil em contratos artísticos da Virada Cultural, num orçamento municipal de R$ 3,582 bilhões, é 0,014%. Divididos pelos 429.660 habitantes estimados pelo IBGE, dá R$ 1,19 por pessoa, menos do que um cafezinho na Zona 7 para três dias de programação com acesso livre no coração da cidade. Quem propõe simplesmente proibir gasto público com festa está resolvendo um problema de R$ 1,19 e ignorando os outros R$ 99,98 de cada cem reais do orçamento.
Meu contraponto é outro, e ele mira a gestão: a cidade sabe quanto paga e não sabe o que recebe. Sabemos o cachê de cada artista porque a lei obriga a publicar o contrato. Não sabemos o custo de palco, som, luz, segurança, limpeza e publicidade, despesas que o município assume por fora e que, em festa de porte parecido, costumam superar o valor dos próprios shows. Para efeito de comparação, o Carnaval municipal deste ano custou perto de R$ 600 mil segundo o Portal da Transparência, e foi preciso um requerimento aprovado na Câmara de Maringá para pedir a planilha detalhada. Não deveria ser preciso!
Na edição passada, só de cachês nacionais, a conta saiu a cerca de R$ 21 por pessoa presente. É caro? É barato? Ninguém sabe, porque não existe o outro lado da equação: quanto girou em bar, restaurante, hotel, transporte por aplicativo e comércio do centro naquele fim de semana.
Enquanto a gente discute a palavra “gratuito”, três lugares resolveram o problema
Em maio, a Câmara aprovou um projeto que proibia a Prefeitura de chamar de “gratuito” um show pago com imposto. O Executivo vetou, e o veto foi mantido por 12 votos a 6 em 6 de agosto. Discutiu-se o adjetivo. Passou batido o melhor pedaço do texto: ele também exigia um painel com despesas unitárias, empresas contratadas, indicadores de público e avaliação de impacto social e econômico. Jogou-se fora a criança com a água do banho.
O que outras cidades e estados já medem e Maringá ainda não?
São Paulo – Pesquisa da FGV contratada pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa
Joinville | SC – Pesquisa contínua da Univille com o Convention & Visitors Bureau, com apoio da Fapesc
Minas Gerais | MG – Lei estadual 26.040, em vigor desde 7 de agosto de 2026
Dois detalhes que merecem sua atenção.
Primeiro: São Paulo reserva R$ 58 milhões só para a sua Virada, mais de cem vezes o nosso orçamento artístico, e mesmo assim contrata uma fundação independente para auditar o resultado. Quem gasta mais mede mais. Aqui, quem gasta menos não mede nada.
Segundo, e este é um ponto que me obriga a ser justo com a gestão maringaense: se a régua mineira valesse aqui, Maringá passaria com folga. O piso de Minas é 5% do maior cachê para artistas locais; nós estamos em 11,9%. O problema não é a fatia, é não haver regra nenhuma escrita que garanta essa fatia no ano que vem, quando eventualmente outro secretário estiver na cadeira.
O imposto está mudando de endereço e a Virada entra nessa conta
Tem uma razão adicional, e ela é de caixa. Escrevi sobre isso no artigo recentemente publicado e vale repetir em uma frase, porque quase ninguém no debate político maringaense percebeu o tamanho disso.
O princípio do destino é isto: hoje, boa parte do tributo sobre consumo fica onde a empresa tem sede; com a Reforma Tributária do Consumo, passa a ficar onde o consumo acontece. O artigo 11 da Lei Complementar 214/2025 define expressamente que, em serviços de organização de feiras, congressos e espetáculos, o local da operação é o local do evento. Assim, o pastel, a cerveja, o hotel, a corrida de aplicativo e a produção do show passam a render receita para Maringá, e não para a cidade onde está registrada a produtora.
Só que a partilha desse novo imposto será calculada a partir de uma receita média de referência que considera a arrecadação de 2019 a 2026, conforme a Lei Complementar 227/2026. Sete anos já estão fechados. Resta este. O que a Prefeitura precisa preparar desde já, na Virada Cultural e em todo o calendário da cidade, é simples de dizer e trabalhoso de fazer: exigir nota fiscal de toda a cadeia do evento: produtora, montadora de palco, empresa de som, segurança, ambulantes credenciados, cadastrar e formalizar quem vende na praça, e registrar cada alvará como estatística. Evento sem rastro fiscal é festa que passou. Evento com rastro é UBS reformada e escola pintada.
Domingo, meia-noite: o que fica quando o palco é desmontado
Cultura não se justifica só por planilha, e eu seria desonesto se dissesse que sim. Uma praça cheia num sábado de Virada Cultural é convívio, é saúde mental, é adolescente descobrindo que existe vida além da tela, é criança do Parque do Ingá vendo circo pela primeira vez, é gente de Sarandi, Paiçandu e Marialva descendo no Terminal Urbano de Maringá para uma noite que não cabe no salário, se fosse cobrada. Isso tem valor mesmo sem número.
Mas é exatamente porque tem valor que precisa de número. Política pública sem medição é a primeira a cair quando o orçamento aperta e cai sem que ninguém consiga defendê-la com um argumento melhor do que “é bonito”. Com série histórica, o secretário de cultura de 2029 chega à audiência do orçamento com uma planilha na mão, e a conversa muda de patamar.
Quatorze anos são tempo suficiente para uma cidade que se orgulha de ser bem administrada saber o que faz com o próprio dinheiro. A Virada Cultural de Maringá merece o mesmo rigor que exigimos de uma obra viária ou de um contrato de saúde: começo, meio, fim e prestação de contas. Não é desconfiança, é respeito pelo que a festa se tornou.

🔗 Leitura Complementar
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